100 bilhões

Paulo Rosenbaum

06 de setembro de 2019 | 16h50

 

Cálculos já demonstraram: mais de 100 bilhões de seres humanos já riscaram o mundo com suas pegadas e passos.

Somos apenas rastros, entendes?

O que seria possível dizer em dias nos quais o tempo oprime todas as passagens? Uma nostalgia pode não ser suficiente para olhar de longe. Nem os aviões reparam a distância que nos cerca. Solitários em mudanças permanentes, enquanto o amor só pode investigar o passado. Os sons que te propagam não são os mesmos.

Acenas de passagem aos transeuntes e a Terra parece um barco com horizontes instáveis. Desce da metáfora que hora te obseda. Vem junto para perceber o que sempre esteve cá fora. E se nos disséssemos simultaneamente, disséssemos não, confessássemos, que estamos fixados nos detalhes: pelo menos das particularidades. Estivemos aqui, mas não sós. Cada um destes 100 bilhões deixou sua impressão. Marca que ficou em algum lugar, um risco, um sulco rupestre, uma pisada em regaço, uma filha, um filho, passagens através das plantas, emoções jogadas sobre os olhos, interação e visagem de animais, caças afoitas, cavernas difíceis de alcançar, ossos de irmãos.

Imagens que acumulamos, visões de soslaio, micro interferências uns sobre os outros. Se da eternidade pouco saberemos, nossa presença sempre poderá sofrer um último registro.

E, ainda assim, será a marca da invisibilidade.