A arte de bloquear

A arte de bloquear

Paulo Rosenbaum

19 Agosto 2014 | 14h27

 

Não deu. Era aquilo mesmo. Convidei gente que queria acabar com minha raça. Como poderia saber? Não solucei, mas troquei fluxo de consciência por exclusão.  Estranhei excluir tantos de uma só vez. Um a um, e foram quase todos. Fiz uma rápida revisão e me perguntei: como todos vieram parar no meu feed de notícias? Eram escolhidos no calor dos dias. Nas noites sem luz. As vezes, o velho acaso. A vigília é uma inércia. Olhava e convidava.Ou só aceitava, sem duvidar. E como iria saber quem eram?  Era só teclar “solicitação de amizade”. Com um click cometia o erro, com o outro  pensava estar livre dele. Só que não é bem assim. Como diz o aforismo, cessam as causas, não os efeitos. E diante daquele “tem certeza que deseja fazer isso?”, eu “não, não tenho certeza”.  Não era só pelo spam, piadas infames, ataques primários ou pobreza de espírito.  Como em toda cartilha paranoica, sou eu, contra todos. Quem dera, 1948 amigos! Ali não eram nem cinco! 1948? Desconheço tantas pessoas de carne e osso. Agora que já aconteceu, confesso a hesitação. Me convenço que só a solidão processa o espírito. Claro que sei, daqui em diante só verei palpites semelhantes aos meus. E qual é o problema? E, por acaso, isso aqui deveria ser uma amostragem da população? Há alguma lei que me obrigue a hospedar na sala quem detesta democracia e despreza as instituições? É o critério de justiça deles que sou obrigado a adotar? Que pregam golpes ou conselhos populares. Jurisprudência cativa e imprensa controlada? Os falsos e os censores? São fantasmas arbitrários. Abaixo aqueles que toleram intolerâncias. Não escolhi brigar. Não quero ouvir, ser obrigado a ver, nem compungido às leituras obrigatórias. Não ter que responder ou se defender dos boatos destrutivos, conclusões toscas, propaganda política rasa e camisetas terroristas customizadas. Suportei jihadistas do partido, trools revolucionários, perfis falsos e perfídia. Só aí soube, há um mar ignominioso no espaço cibernético.

A desculpa de quem age é a reação. Depois de feito, creiam, simplesmente impossível compartilhar o alívio que se sente ao final da faxina. A vida precisa voltar a ser fixada sob impulsos. As vezes, a saída não passa pela razão, chega no ímpeto. Viva a alienação. Avante opinião única. Que entrem os moderados e expulsem esse novo entulho autoritário disfarçado de transformação.  Que sentem-se os intuitivos. Farei meu trajeto, acesso, e compasso. Em meio aos julgamentos precários, hoje escolho meus vereditos. Entre as tiranias do mundo, me solidarizo com minhas arbitrariedades. Adeus ironias alheias. Se for critica, trato disso em frente ao espelho. E assim, posso deixar de me levar a sério. Não, não quero curtir, obrigado. Não curto, não compartilho, denuncio ou comento. Para mim, chega. No começo foi difícil. Hoje, quero só falar. Nem adianta responder.