A Ciência Infusa da Maternidade

A Ciência Infusa da Maternidade

Paulo Rosenbaum

08 de maio de 2022 | 13h09

Nilda Raw O.s.t. 2019

O Professor de Medicina Walter E. Maffei, nosso inesquecível mestre, costumava nos ensinar que “se a mãe não faz o diagnóstico, ninguém mais faz”. Para além da generalização lúcida do neuropatologista, o que Maffei queria realmente dizer com a provocação era trazer os médicos para um exercício de realidade e humildade: baixem a crista quando se trata de emitir pareceres peremptórios, definitivos, dogmáticos. Mas também, e principalmente, mostrar que há nas mães uma espécie de ciência infusa, esotérica, mística mesmo, que faz delas exímias diagnosticadoras.

Afinal, qual é o poder da maternidade?

Elas geralmente conhecem como ninguém, através de uma presciência jamais investigada, o estado da sua prole. Sabem, com antecipação o que os filhos estão pensando. Conhecem, nas minúcias, suas necessidades. Intuem, geralmente pelos olhos, olhar e linguagem, se há verdade no que dizemos. Também podem reconhecer se há algo alarmante, ou apenas dissipam o pânico. Todas estas qualidades são bem menos frequentes nos pais. Não se trata de uma exaltação do feminino em detrimento do masculino numa data artificialmente estipulada, mas de um exame excêntrico do que torna a maternidade um evento tão singular. A contribuição biológica masculina ao processo é limitada, se comparada ao longo período da gestação, amamentação, criação. Em toda a natureza, somos os mamíferos mais despreparados ao nascer. Escapamos do útero solitários, incapazes de nos defender. A dependência dos bebês humanos comparativamente com todos os outros animais é assustadora.

E há também algo além nesta desproporção: mães costumam ter a virtude da ubiquidade. Não se trata do fenômeno físico da bilocação (segundo o famoso experimento de Schrodinger um átomo pode estar em dois lugares ao mesmo tempo). Refiro-me ao fato de elas podem atender demandas múltiplas simultaneamente – as vezes infinitas – de todos, incluindo maridos, geralmente marmanjos carentes. Estes desdobramentos requerem uma habilidade que ultrapassa a dos equilibristas de pratos. E não se trata apenas da jornada dupla, tripla ou quadrupla de mães as quais, além de tudo, são chefes de suas casas, mas de conseguir manter e estruturar a família como tal. São elas o epicentro dos encontros, das reuniões, geradoras da unidade congregacional. Sem elas, além da inexistência da raça, provavelmente não existiria o conceito de irmandade, “brotherhood”. Neste sentido, o papel da maternidade deveria inspirar nos homens menos ciúmes e mais inveja. São elas que fazem questão das egrégoras. A contraprova trágica é que quando as mães se vão, as festas e encontros costumam minguar. Pelo menos até que novas mães peguem o bastão e liderem novamente.

Maternidade também se refere a um estado de apego visceral que sem os devidos cuidados pode se transformar em um vínculo simbiótico. Mas notem que mesmo uma simbiose não exagerada pode ser uma vantagem biológica e existencial: o estado de conexão umbilical das mães permite a empatia inata. Gera o amor incondicional e imotivado. Isso é, ao contrário da condição paterna elas não precisam se esforçar para adorar um fragmento que por 9 meses provisórios foi parte das entranhas. Assim, a emancipação das filiações sempre será mais dolorosa e a distância mais sentida. Por isso, as mulheres a inveja primordial da condição masculina é uma invenção tola que só poderia ter saído da cabeça de homens presunçosos.

O que afinal se compara ao orgulho, e até a soberba de poder mimetizar a função do Criador?

Se um dia houver paz, agradeçam antecipadamente às mães que conceberam e conceberão  — mas também às postiças, as que não conseguiram, aquelas que saíram de cena prematuramente —  serão elas as mais interessadas em preservar o mundo para os filhos.

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