A curiosa mensagem unívoca das mídias

Paulo Rosenbaum

09 de novembro de 2020 | 13h45

É essa a voz? E por que parece uníssona? A mensagem pode ser unívoca? É isso que ouço? Como se todas as agencias noticiosas tivessem uma fonte única, e viessem de uma espécie de central mundial de jornalismo.  Podemos estabelecer uma analogia com a ideia de centralismo partidário? E quanto à diversidade de pareceres?

Por isso mesmo muitos tem esperando por homens que venham de fora. Metade da humanidade? Cresce visivelmente desejo por políticos  “outsiders”, gente que não tenha seus perfis pré-estabelecidos pelas cartilhas da burocracia do poder. Para muitos isso é imperdoável já que só os cidadãos que estão há décadas em seus gabinetes inerciais tem direito à prorrogação indefinida de seus mandatos. Pode-se discutir seus métodos e modos, mas o ódio irracional a Trump também passa por este inconfesso corporativismo de classe.

Contornando aqueles que se definem por esquemas de antevéspera e que fazem da diplomacia e dos acordos seu ganha-pão alienados da opinião pública. Acreditávamos em mudanças, porém esquecíamos de um tópico vital: a engrenagem tem os seus procedimentos e quando ameaçada, coloca em marcha o processo de autoregulação, aquele que sustenta os desvios nas Repúblicas.

Temos nos sujeitado em ser sistematicamente desinformados — através da seleção e censura das notícias —  enquanto o intelectuopólio avança sem questionamentos expressivos.  O silêncio cada vez mais audível dos intelectuais virou um tabu. Ele vêm através de consensos que ninguém pediu, acordos insustentáveis que foram impostos sem consulta prévia, opiniões que se reúnem na forma de um bloco de pensamento único. Isso também acontece abaixo do Equador.  Instalado, há um regime singular de informação que agora passou a ditar um lado dos acontecimentos.

Não há novidade alguma, todo vale do silício engajou-se abertamente na campanha eleitoral americana. E usaram pajens eletrônicas para suprimir ou exaltar informações.  Babysitters digitais supostamente neutras que agora tem o poder de afirmar se há um fato ou é a apenas a versão divergente de um deles. Notícias agora vem marcadas como “falsas” ou parcialmente falsas”, o que no fundo dá no mesmo.

Não se trata apenas de contestar o resultado eleitoral atual ou os futuros (já que o erro persistirá) como se só um dos lados não tivesse o direito e até mesmo o dever de esgotar as medidas legais oferecidas pelo sistema jurídico. O fato é que o sistema pactou com quem — evocando a democracia —  acenou e obteve apoio de conhecidos tiranos e ditaduras de conveniência. Só para ficar em um exemplo: como se explica, sobretudo, a mansa conivência com o regime teocrático, misógino e homofóbico dos aiatolás e as suas confessas aspirações nucleares?

Enquanto bilhões se distraiam com a multiplicidade de teorias conspiratórias, o complô viria pronto. A democracia agoniza e não tem nada a ver com polarização — um efeito tomado por causa.  Trata-se antes de uma nada inocente arquitetura costurada por um status quo que se pretende hegemônico e não admite contestação. Trata-se do supremacismo das boas intenções. Criaram-se falsos cânones de devoção ao bem comum que lutam por nós (sic) contra os agentes egoístas do mundo privado, essa gente má. Desta perspectiva só um lema é prevalente, o establishment que representa o monopólio do bem não pode perder. O mesmíssimo se passa aqui. Podem fulanizar, mas o problema não está nem nunca esteve nas personalidades, mas em perigosas distorções dos critérios de avaliação. Se não pegasse mal a elite corporativa endossaria em público — pois é notório que o fazem à boca pequena — a famosa frase de Pelé de que o “povo não sabe votar”. Exceção feita — caso realmente se confirme — à atual eleição nos EUA.

Enquanto isso, a rede de emissoras unidas já decidia quem venceu, lá, onde a justiça ainda pode reverter o anúncio e prevalecer, cálculos podem ser refeitos já que estamos diante de urnas que felizmente são auditáveis por agencias independentes. Podem ou não mudar o resultado, mas é importante pontuar que o que se partiu nestas eleições foi bem mais do que a disputa eleitoral.  A confiança nos sistemas de informação que já se encontrava instável, foi rompida, despencou mais alguns degraus no índice de credibilidade dos cidadãos e este comportamento demarcará para sempre uma era. Das pesquisas às manchetes, a era da instrumentalização da informação, antes  característica exclusiva dos regimes de Estados totalitários, agora concentraram-se nos proprietários das grandes redes sociais. Tanto pior, a censura pode ser legitimada como uma ação privada, para bem além do controle do próprio Estado.

A democracia que funciona não deve, não pode ser confusa, ao contrário do que os seus representantes afirmam recorrendo a slogans vazios. A nova terminologia abusa dos artifícios de linguagem: quando a oposição se organiza o consórcio chama de polarização, quando o ódio encontra vias, e aval, para se expressar ele nunca é responsabilidade de movimentos violentos — verdadeiras gangues paramilitares armadas — que usam saques e intimidação como armas de pressão política. A história é pródiga em mostrar arquivos de manchetes que hoje expostas deveriam inculcar arrependimento, como, por exemplo, “Hillary Ganhou”e “Al Gore é o novo presidente”.

Se a mídia jornalística ainda deseja preservar o status de instituição — e, sem dúvida, deveria mesmo ser considerada uma delas — é urgente que ela revise seus critérios de voluntarismo partisã. Que torçam ou distorçam seus desejos políticos como indivíduos. Pode ser apropriado para apresentadores de talk show ou humoristas, mas decerto não é razoável para comentaristas especialmente quando não conseguem controlar suas emoções de estádio em público. Ou usar ostensivamente simulações e projeções precoces que, há apenas 4 dias, já haviam anunciado vitória e diplomado um dos candidatos.

De quem será a responsabilidade se, em função de adiantamentos inconsequentes de resultados mais divisões na sociedade forem instigadas? Ou isso agora não importa? Ora, a polarização passa por este tipo de torcida de veículos que deveriam conter e encarnar a neutralidade tácita e sóbria de quem se espera rigor analítico e uma verdade hermenêutica tecida através de interpretação dialética dos fatos. É cada vez mais raro deparar com analistas não ideológicos.  Mesmo sendo devotos de algum sistema de notação deveriam afirmar seus conflitos de interesse ao apresentar suas teses ao público telespectador.  Que tenha a oportunidade de expressar sua opinião, desde que explicite seu viés. Ao recusar expor esta tendência ao público o que se faz é propaganda político-partidária, emulando isenção e neutralidade.

A imprensa livre só se torna efetivamente “livre”, emancipada e independente quando a consciência de seu papel institucional estiver acima das paixões, de interesses privados ou ao sabor de algum viés ideológico.

Sem estes cuidados, teremos cada vez mais comitês de redação partisãos instalados nas mídias — e fora delas — encolhendo os espaços de reflexão e debates que façam avançar o conhecimento.

Ainda há tempo — escasso — para fazer a autocrítica.

 

 

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