A falsa hermenêutica do jornalismo instrumental

A falsa hermenêutica do jornalismo instrumental

Paulo Rosenbaum

24 Junho 2018 | 20h06

Como se não bastasse o excesso de realidade nos empurrando ao beco, surgiram, nos últimos dias nas redes sociais mas também fora delas, textos que se superaram em matéria de distorção. É perturbador o volume de desonestidade intelectual a serviço das causas. As peças mais recentes migraram às mídias jornalísticas com uma matéria publicada na FSP onde se traçava paralelos (sic) entre a política migratória norte americana e a estratégia nazista conhecida como “solução final”.

Esta e outras obras primas da política comparada tem aparecido com inédita abundância. Sob o generalizado pretexto de classificação falso ou verdadeiro, e empunhando a expressão “fake news” como troféu, os lados se acusam simultânemente. O resultado é a péssima qualidade da informação e o jornalismo a desserviço dos leitores. Se por um lado, com esforço e honestidade é possível diagnósticar falsas notícias, é muito mais complicado — mas a verdadeira tarefa do jornalismo imparcial e independente — detectar a falsa hermenêutica.

Mais sutil, mais ardilosa e muito mais elaborada ela pode confundir e passar a impressão que é uma verdade sob a famosa expressão “contra fatos não há argumentos”. Porém eles existem e dependem de como os fatos e as metáforas que se criam ao redor deles são expostas. Existem regras para interpretar realidade e texto e aboli-las não podem servir de álibi para afirmar o implausível. Tais regras existem desde a apreciação de uma obra de arte até um texto científico. A liberdade de expressão não pode contemplar a narrativa embuste sem contesta-la.

O problema, ainda sem um diagnóstico satisfatório deve estar bem em outro lugar: na pretensa aceitação da diversidade. No pseudo acolhimento do contraditório. Já descobrimos que o famoso adágio “contra-hegemonico” visaria, ao fim e ao cabo, execrar todo aquele que se recuse a fazer generalizações reducionistas para endossar o senso comum. Quem quebrar essa regra de ouro do jornalismo instrumental corre o risco de condenação pública. Fui obrigado a constatar em outro panfleto este gênero de insinuação. O redator afirmava que duvidar da estratégia de manipulação midiática — sobre como a mídia tratou o episódio dos abrigos infantis nos EUA — poderia merecer o titulo de “capo” (figura sinistra, relacionada aos outros presos que ajudavam/colaboravam com os nazistas nos campos de concentração). Acusar o outro de colaborador de nazistas, além de tese ignominiosa e uma analogia repugnante, é a inflexão grotesca que adota o discurso intolerante contra o qual pretensamente se insurgiu.

A comparação entre o holocausto e seus desdobramentos com o endurecimento da política imigratória dos países, por mais cruéis ou repugnantes que aparentem ser, enseja uma espécie de cinismo involuntário. O cinismo torna-se mais grave e menos involuntário na medida em que os argumentos evocam um moralismo supremacista. A comparação entre a política de exterminio nazista que criou o maior drama da civilização ocidental patrocinando 1.5 milhão de infanticídios com o grave problema dos shelters (abrigos) infantis de crianças separadas de seus pais nos EUA  não é só um exagero, não se trata apenas de um contraste hiperbólico, nao se limitou a lançar mão de superlativos inocentes: é uma fraude jornalística.

É, sobretudo, uma interpretação superficial, uma demonstração de distorção e imperícia para analisar os fatos históricos.
E quem será que a patrocina a distorção sistemática?

Fazer um paralelo moral destes requer a coragem de se expôr à estultice. Enxergo dois propósitos na divulgação desta pseudo tese: banalizar o holocausto como o faz sem igual a imprensa iraniana, os racistas do BDS, os jihadistas e terroristas palestinos e as Ongs ligadas aos financiadores da extrema esquerda, aos regimes judeofóbicos de extrema direita, ou a uma ingenuidade limítrofe que deve ser acolhida com piedade e condescendência, mas furiosamente combatida com mais informações. Uma pena que quem deveria fazer este trabalho é quem mais o impulsiona.

Quando a mídia deixa de ser analítica e torna-se jornalismo instrumental a favor ou contra uma causa, perde a função jornalística para tornar-se mero apêndice ideológico do regime ou proposta política/partidária defendida. Testemunhamos isso muito recentemente no discurso vitmizador do petismo e aliados.

Enquanto toda essa discussão se desenrola o músico racista Roger Waters — classificado pelo prefeito da cidade como persona non grata — faz show em Munique com projeções e incitamento à demonização dos judeus, e sob o manto do veto à islamofobia, os jihadistas europeus gozam de progressiva liberdade para oprimir as maiorias. 

Eis uma época na qual precisavamos encontrar expressões fortes e sintéticas para expor nossa desolação: Céus.