A Imagem de Bosch (200o Aniversário do Museu do Prado)

A Imagem de Bosch (200o Aniversário do Museu do Prado)

Paulo Rosenbaum

19 de novembro de 2019 | 13h30

A imagem de Bosch*

Sentei na beirada do sofá e ajeitei as três fotos no colo. Passei a avaliar cada uma delas sob a luz fosca do lustre incandescente da sala. A imagem era estranha. Borrada, com interrupções e riscos.

Comecei a invertê-las para avaliar outras angulações possíveis.
Intercalava a leitura do relatório com a observação da imagem.

– Realmente parecem anormais, mas sem feições, apagado e mal definido.
– Estão deitados. Pode ser uma montagem malfeita. Eu me aproximava para mais para detalhes – só as letras são nítidas.

Eu conhecia as técnicas de superexposição fotográfica, mas aquilo era diferente de tudo que eu já havia visto.

Sempre tive atração pelo tema do registro de imagens, dos daguerreótipos às imagens fotográficas. Em uma pequena fototeca, amealhei meia dúzia de imagens estereoscópicas, mas meu orgulho era a antiga Leica AF5, com lentes Zeiss-Zicon pela qual paguei uma fortuna em uma época na qual me faltava dinheiro até para o básico.
Voltei-me ao envoltório, a gosma que cobria as estátuas gigantes do carbono revelado. Lembrava textura de bolha, consistência de borracha.
– Já vi isso antes.

Com alguma dificuldade recuperei a imagem: o tríptico “O jardim das delícias terrenas” pintado por Hieronymus Bosch exposto em Madri.

Envoltos na bolha semitransparente, numa película fina, fosca, quase translúcida, o casal sem roupas sentava-se numa folha. Ao ver a óleo sobre tela no Museu do Prado, pela primeira vez ao vivo, fiquei paralisado. Perdi todo o salão com as telas de Goya e fiquei parado ali, na frente do painel. Isso até ser colocado para fora pelos seguranças depois das duas campainhas que anunciavam o término do horário. Mas agora era completamente diferente. O que eu tinha nas mãos era outra coisa, podia pressentir que era importante.

A imagem revelada era suja, precária e indefinida. Mas foram duas horas auto-hipnotizado, sentado na ponta do sofá. Quando consultei o relógio, já passava das dezesseis e trinta. Só então me dei conta: eu era uma testemunha solitária do extraordinário.

(Trecho do livro “Céu Subterrâneo” Editora Perspectiva, 2016)

 

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