A imensa curiosidade

A imensa curiosidade

Paulo Rosenbaum

31 Maio 2015 | 14h15

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Em seu leito de morte o escritor Leon Bloy, respondeu ao amigo que lhe perguntou

— O que está sentindo?

–Uma imensa curiosidade!

Se ninguém voltou de uma situação tão liquida e certa quanto à explosão de uma supernova, a morte e a incerteza acerca da vida depois do fim, continua sendo um enigma perturbador. Não pelos detalhes mórbidos, mas pelas idiossincrasias de cada cultura. Há paraísos naturais e artificiais. Em alguns castidade, em outros, santificada lascívia.

O escritor Leon Bloy, as vésperas, poderia ter se rendido ao ceticismo ou à languidez: escolheu a porta aberta. Se você não é médico ou nunca acompanhou uma última expiração, talvez esse relato soe mais abstrato do que de fato é. Nossa cultura exorcizou tanto a morte que, fora os obituários, preferimos ignorar sua onipresença. Esquece-la sob o trago, amando ou numa corrida são medidas quase corriqueiras. Mas nenhum destes álibis resistem ao que essa velha ceifadora tem a nos dizer.

Há duas saídas: fazer ouvidos moucos ou prestar mais atenção à nossa senhora, a brevidade. Isso não significa, ainda que totalmente plausível, aceitar a correspondência entre a brevidade da vida e a irrelevância.

Destarte, o que mais chama a atenção na frase de Bloy é menos a morte e muito mais sua extraordinária atitude, comprimida na palavra curiosidade. Ela é raridade, desejo de saber, e também fenômeno. O escritor nos instiga para além da palavra: e se fôssemos mais curiosos para além da quitação peremptória? E se conservássemos a naturalidade lúdica da infância? E se, com ela, espantássemos a monotonia das constâncias? Como se precisássemos dela para nos arrepiar. Das pequenas às medianas circunstâncias da vida, acabamos viciados no imprevisível.

Podemos negar, mas ninguém aspira rotina. E o que é curiosidade senão abrir-se ao contra intuitivo? Nossa urgência é com a passagem do tempo, mas, curiosamente, nossa esperança vem do inesperado.

Desta perspectiva, abelhudo passa a ser virtuose. Ninguém espere indulto para chegar à indiscrição. Mas, e se a bisbilhotice se tornar necessária?  É provável que nosso mais inconfesso leitmotiv esteja colado à nossa última perquirição. Pois é a sede insaciável que se opõe à indiferença.  É o levantar das orelhas que enfrenta o desdém. É o tange-foles que se insurge contra a repetição. O curioso busca o excepcional. A investigação, o encontro com o surpreendente. E o ávido espera por um novíssimo. Anotem as últimos dizeres de uma pessoa, elas podem ser um assombro, ou o espetáculo que as palavras não descrevem.

Talvez seja só um instinto adormecido: já que, como denunciou Hamlet, nunca ninguém voltou, buscamos a perplexidade como uma redução de dano frente ao silêncio comedido do universo.