A Vitalidade do Livro e o Surto

Paulo Rosenbaum

22 de abril de 2020 | 19h51

Dando prosseguimento às entrevistas de caráter multidisciplinar, convidamos o Editor Eduardo Salomão (ES) para uma entrevista:

Blog – Eduardo, considerando que todas as estimativas eram de que até o final de 2019 esboçava-se alguma reação na economia e, hoje, estamos diante de um cenário incerto com a paralisia induzida do comércio, indústria, e da sociedade como você vem enxergando o impacto da crise motivada pela pandemia no mercado editorial brasileiro?

ES– As livrarias estão sofrendo com suas lojas fechadas, mas existe a alternativa do comércio eletrônico para o livro também. As livrarias exclusivamente virtuais parecem estar sofrendo menos do as que funcionam a partir de uma livraria convencional.

Assim como um paciente com baixa imunidade sofre mais com a doença, o “livro brasileiro”, que já vinha sofrendo com as dificuldades de duas cadeias de livrarias importantes, está mais sensível ao momento do que deveria.

Existe um problema de liquidez imediata causado pelo represamento da receita apurada com a venda de livros consignados pelas livrarias. No entanto, se o comércio não “reabrir”, logo, ele será sucedido pela quebra do faturamento decorrente do fechamento das livrarias. O comércio eletrônico não sustenta o mercado como um todo.

Blog – E quanto aos colegas editores e toda a cadeia de livrarias, que tipo de relato tem chegado até você?

ES– A pausa introduzida no comércio criou atritos entre livrarias e editoras, como também deve estar acontecendo em diversos setores da economia. Mas como o modelo comercial deste mercado está ancorado em consignação, a percepção do represamento da receita é muito ruim, dando espaço para uma crítica dos editores.

O que me preocupa muito é o próximo passo, como faremos para sair do “isolamento social”. Como ficará a renda do consumidor? E suas repercussões sobre o volume de vendas do livro? Minha experiência com congelamento de preços e pacotes econômicos do passado me ensinou que o nível de vendas de livro (no Brasil?) é extremamente sensível à redução de renda, e por isso, eu imagino que a queda de vendas do livro será maior do que a queda de renda que vamos experimentar.

Também tenho grande ansiedade com a regularização das relações entre editoras e livrarias. Como será o financiamento dos livros nas prateleiras das livrarias a partir do “retorno”? Terão os editores a capacidade de continuar financiando as livrarias?

E o Governo? Terá ele a capacidade de amparar um setor tão importante para o Brasil? Será possível oferecer crédito compatível com as necessidades da indústria? Até agora, não vi nada adequado.

Blog – Como publisher com inserções internacionais o que os seus contatos do mercado externo tem observado? Quais as similaridades e diferenças?

ES – Já houve diversos momentos em que tivemos que explicar problemas provocados por pacotes econômicos e regulamentações absurdas. Seja por causa de dispositivos que impediram a remessa de direitos autorais, ou por causa da hiperinflação que corroía valores a serem remetidos para autores e/ou agentes literários fora do país.

Desta vez o fenômeno é mundial, e, acho que isso tornará qualquer negociação (ou repactuação) mais fácil.

No Brasil e na América Latina quase não existe a figura do agente literário. Acha que essa ausência favorece ou desfavorece o desenvolvimento da literatura? Como os autores podem ser apresentados adequadamente às editoras e portanto ao público internacional?

O agente literário é um elo na cadeia do livro. Pode ajudar. Pode atrapalhar. Se for um bom agente, pode ajudar muito…

É muito difícil controlar um processo intelectual como o da criação de uma obra literária. Acho uma atitude petulante apresentar uma fórmula ou formato para fazer a conexão de um autor com seu leitor, através de uma editora e das livrarias. Gosto de achar que cada autor, que cada livro tem a sua própria história. Aliás, já li alguns livros que contam a história de um autor e sua obra …

Blog – Também existem poucos veículos de divulgação especializados em literatura, e daqui em diante, feiras literárias e bienais de Livros, tendem a ser postergadas. Não seria cada vez mais importante repaginar a divulgação e recriar a tradição, por exemplo, depoimentos de escritores na TV aberta, documentários, e trazer de volta os cadernos especializados nos grandes jornais?

ES – Eu sinto falta dos cadernos literários como aqueles que conhecemos na década de 1980 e 1990. Os caminhos da divulgação e promoção do livro agora são outros. Não sei se são melhores ou piores. Apenas são diferentes. Mas é preciso considerar que o poder que eles concentravam foi diluído, democratizando o processo. É preciso mudar para melhorar.

As feiras cumprem outro papel. Vão sofrer neste momento, junto com outras iniciativas e empreendimentos, mas vão sobreviver. Talvez até ganhem mais importância.

São elas que, com muita alegria, demonstram claramente o papel do livro na sociedade. Elas apontam um potencial, estabelecem uma meta não apenas pra a indústria editorial. Considere a repercussão do Prefeito do Rio de Janeiro durante a última Bienal do Livro Carioca. Mobilizou o Brasil inteiro. Viva o livro! Viva o autor!! Viva o leitor!!!

Blog- Pelo que você relatava, o público leitor já estava em processo de transformação, buscando, talvez,  um outro tipo de narrativa?  Poderia nos falar mais a respeito destas novas demandas?

ES– É preciso considerar os diferentes tipos de livro para avançar com qualquer reflexão sobre “novas demandas”. Livros infantis, livros didáticos, livros técnicos e científicos, livros de interesse geral. Livros em suporte de papel, e-books ou áudio books.

Para cada gênero literário existe um tipo de narrativa adequada. Os diferentes suportes também podem introduzir variações na construção o texto. Veja por exemplo a nota de rodapé, que fica no pé de cada página em uma edição de papel, mas se apresenta como uma caixa de diálogo (hipertexto) em um e-book.

Eu tenho a impressão que o leitor de hoje prefere a leitura de um texto mais objetivo. Se encontrar um livro de interesse geral, que possa oferecer informação valiosa em um contexto recreativo teremos achado uma pérola.

Blog – O “contexto recreativo” se contrapõe à chamada alta literatura? Podem ser complementares? Inter excludentes?

ES – Se um autor encontrar uma forma de passar informação enquanto conta uma história interessante, ele terá achado o caminho do coração do leitor.

É bom lembrar que um mesmo livro pode ser recebido de formas diferentes por cada leitor. É plural. Quase ecumênico. Um bom livro pode muitas coisas. Pode muito!

Blog – Quais aspectos impactarão — ou já impactaram — o mercado editorial quando colocamos em perspectiva uma inevitável aceleração da revolução digital e seus instrumentos, tais como home office, webinars, leitura digital? Isso significa necessariamente uma modificação nos hábitos de leitura e consumo de livros? Imagina que tais mudanças serão permanentes?

ES- Acho que a grande contribuição do “digital” é no acesso ao livro, no suporte da preferência do leitor. Hoje, a partir de um computador é possível ter acesso ao livro de forma mais fácil, pondo fim ao isolamento cultural geográfico e democratizando o acesso a cultura e conhecimento difundida pelo livro. Aliás, não apenas a partir de um computador, mas também de um tablet, smartphone, ou outra engenhoca moderna.

Não podemos esquecer que existe alguém produzindo conteúdo (autor) de um lado, e alguém consumindo este conteúdo (leitor) de outro. A informação ainda é passada através de letras, organizadas em palavras, frases, sentenças, capítulos, volumes, …

Ou seja, a leitura não mudou. Mas ela ganhou concorrência. Novas formas de mídia surgiram para disputar o tempo e a preferência do leitor, que agora também é um “youtuber”.

Blog – Mas, no caso, uma concorrência “quase desleal”: a passividade da projeção da luz das smart TVs e telas de alta definição sobre nós, requer apenas um controle remoto, e um assento confortável, enquanto a leitura envolve outros mecanismos de percepção e estimulo intelectual, e, seguramente, mobiliza outros recursos.

ES – Olha, realmente existe a concorrência desleal que você aponta. Se der mais espaço para o livro, não tem para nada ou para ninguém. Aliás, não sei que tipo de equipamento seria atraente sem o apoio do livro, que, de forma geral, é o grande manancial de conteúdo apresentado nas telas. O segredo é despertar o leitor para a leitura…

Blog  – Neste momento muito particular, e sem precedentes, da história recente você gostaria de apresentar algumas sugestões de estímulos e incentivos, não necessariamente governamentais, para aumentar o interesse do público nas atividades literárias?

ES – Acho importante colocar o livro à disposição do leitor, por isso, não vejo como fugir do sistema comercial em vigência marcado pela consignação. Mas ele pode ser aperfeiçoado. As livrarias podem se integrar às editoras através de um sistema de comunicação que possibilite a logística no ponto de venda de forma mais lucrativa para todos. Quem sabe não é possível sensibilizar um agente financeiro para intermediar as operações entre livrarias e editoras, removendo assim uma barreira importante para a circulação do livro?

Acredito que o melhor lugar para vender livro é o balcão de uma livraria, seja ela eletrônica ou não. Não que o livro não possa ser vendido em outro lugar…

Blog – Poderia explicar melhor o que significa “sensibilizar um agente financeiro”? No caso de pontos de venda, por exemplo, seguir os cânones norte americanos e vender livros em farmácias, lojas de departamento, nas estações de metrô?

ES – Eu acho que um agente financeiro dentro da cadeia do livro pode ajudar. Ele pode financiar  a cadeia toda, ou parte dela. Se ele atuasse entre o editor e a livraria, liberando o editor da obrigação de financiar o ciclo comercial do livro seria uma contribuição enorme. Já existe a tecnologia e cultura necessária para fazer isso em outras indústrias. A cadeia ganharia eficiência com um agente financeiro cumprindo a tarefa de financiar o livro. Há lucro para ele nessa atividade…

Não há porque desprezar nenhum ponto de vendas. Assim com as livrarias vendem produtos que não são livros. Mas eu ainda acho que o melhor lugar para vender o livro é na livraria. Apesar do ciúme que tenho ao ver outros produtos ao lado dos livros dentro de uma livraria.

 

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