A incrível história de uma obsolescência induzida

A incrível história de uma obsolescência induzida

Paulo Rosenbaum

22 de março de 2019 | 17h54

Nilda Raw – Técnica Mista sobre tela (2016)

A democracia’ o governo do povo, para o povo, pelo povo. Esse é o padrão, o slogan que todos nós fomos treinados a aceitar quando a palavra mágica DEMOCRACIA surge na testeira do jornal, tela do I pad ou no screen dos celulares, certo?Poís algo muito plástico pode estar acontecendo com o conceito neste exato minuto. E não é apenas um mimetismo provisório, de ocasião, é mesmo um caso de mutação. A democracia pode não mais ser definida pelo sentido original que costumavamos atribuir à palavra. A ruptura é ampla e decreta, além de antecipar a instabilidade sobre o futuro próximo. O significante deslocou-se do significado dando origem às metamorfoses que passaram a servir muitos interesses, menos a quem mais interessa, a saber, a multidão, os beneficiados anônimos. Massas habitualmente magnetizadas pelo populismo ou desatentas a ponto de aceitar que se casse silenciosamente o único artício de voz que lhes resta. Refiro-me aos habitantes das democracias que, a despeito de votações, referendos e sufragios, não tem seus desejos atendidos. Observem apenas — sem julgar o mérito da questão — a escolha dos ingleses pelo Brexit (e as subsequentes sabotagens da Casa dos Lords) , as eleições recentes no EUA e Brasil (e a histeria aprioristica generalizada) , a insatisfação crescente com Macron e Merkel (e as inssurreições semi anárquicas especialmente em Paris), e enfim o vergonhoso silencioso silêncio sobre as ditaduras de Maduro e Ortega.

E por que?

Os alodemocratas, estas lideranças inovadores e criativas deram um jeito de não atender as demandas populares em seus países sob as mais diferentes alegações. Por exemplo, o sociólogo português Boaventura Sousa Santos, conhecido ideólogo de inspiração marxista, recentemente revelou sua grandiloquente síntese: “vivemos em sociedades politicamente democráticas, mas socialmente fascistas”. Exatamente: o sistema é perfeito, quem não presta são os povos. A justificativa cultuada por quem se alinha com este sistema de notação é incrível: sem modéstia recorre-se ao mais puro maniqueísmo instrumental ideologicamente engessado para afirmar que tudo que não for progressista é inferior ou simplesmente “mau”. Não é uma peça original: em função do estado de desinformação dos enormes contingentes de seres incultos contumazes, desconhecedores crônicos, eleitores inabeis e politicamente manipulados eles costumam declarar em manchetes e artigos:  “mais desta vez vocês escolheram errado”. Assim grita o establishment para enfim profetizar

— “Não se preocupem, nós retificaremos vossas decisões”.

Enganados, iludidos e sem conhecimento de causa os eleitores, claro, elegeram um péssimo caminho, quando o que conviria seria mesmo é a boa e velha meta que o establishment decretou. Atenção: a terapêutica do sistema não é só o bem personificado na Terra, é o único viável. O único que serviria para prosseguir com o projeto original, ainda que ninguém saiba bem o que seria isso. A ludopatia do socialismo utópico do “quase acerto”? O capitalismo de Estado que se orgulha de poder funcionar prescindindo de sujeitos livres? Portanto, o ingrediente chave para negar o que a maioria realmente deseja e expressa através dos votos parece estar se tornando um padrão. Ele se utiliza também de uma espécie de justificacionismo que encontrou quase perfeita universalização no aforismo do Pelé. Lá atrás, o Rei do Futebol afirmara que o “povo não estava preparado para votar”, antecipando que nunca esteve, nem estará. Mas já que precisamos manter a gestalt há quem ainda o justifique pois afinal foram gestões consecutivas do partido dos trabalhadores que nos trouxeram até o abismo atual, abismo que a deseleição corrigiu apenas parcialmente, uma vez que as forças, vale dizer, as torcidas organizadas derrotadas, a inabilidade do governo aprendiz e o neutralismo instrumental ainda formam um conjunto impagável. Impagável,  porém épico: ele se expressa através do coro nonsense:”tomara que dê errado”.

Apesar do montante de irracionalidades, a democracia seguiria oscilante rumo a sua teleologia maior, conseguir acomodar os conflitos, assegurar segurança com liberdade e prover o bem estar da maior parte dos cidadãos de uma nação. Entretanto, a aristocracia residual em união fisiológica absoluta com parte da elite intelectual deliberou que o rumo deve, prudentemente, ignorar a opinião pública. Ou induzia-la a acreditar nos dogmas por persuasão sistemática. A outra fórmula teria sido arquitetada pelo conjunto de intelectuais e mentes brilhantes, apoiada por consensos censitários invioláveis e sustentada pelo longo histórico da tradição de instituições corporativas. Foi assim que a fragmentação do poder foi sendo instaurada na República através dos perigosos e inflamatórios jogos de justiça. Atenção, pois não se trata mais da independencia de poderes. É outra coisa que está em cima do tabuleiro: dados lançados numa mesa sem o conhecimento público. O jogo de bastidores, de onde os escritórios do Poder centralizado emanam suas estratégias. E onde os segredos do “todos contra todos” são cultuados e desenvolvidos. É assim que, da direita à esquerda, vem crescendo a indústria de intolerantes, terroristas avulsos com alcatéias digitais, além de novos e velhos bodes expiatórios, tendo sempre como arquétipo obcessivo os judeus.

O ponto nodal para adrestrar as massas incautas é definir o quantun de consciência necessária para traçar o próprio destino um “povo” (um eufemismo para distinguir as massas dos bem pensantes) precisa ter para ter suas decisões chanceladas e, quem sabe, ter o direito de traçar o próprio destino.A alternativa é ter a emancipação e a liberdade canceladas e, para isso, inventar um neologismo qualquer.

Que tal Alodemocracia esclarecida?

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