A insensatez não merece solidariedade

A insensatez não merece solidariedade

Paulo Rosenbaum

10 Fevereiro 2017 | 20h02


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O mundo está pontilhado. não só por polaridades sem consistência — que alguns ainda entendem por direita e esquerda — mas pela descontinua marcha da insanidade que parecem se difundir com a velocidade das infecções. Sim, a peste emocional descrita por Wilhelm Reich é uma anterioridade cronológica que não é uma inferioridade lógica. Se não tenho uma analise melhor a oferecer do que o preciso editorial de ontem deste Estadão que os leitores permitam a exposição de alguns tópicos.

A democracia deveria ser consenso, mas populocratas perceberam que surfam melhor na adversidade. Isso é, faturam mais quando conseguem o enfraquecimento institucional para, ao final, desmilingui-las, remodelando-as ao gosto. Com tal feito os de sempre esperam poder governar — isso é o que imaginam que fazem — sem fiscais por perto. Já vivemos o Estado policial, e, para quem reparar bem, ele só pode existir quando todos os outros mecanismos deixaram de operar. A resposta à falta cívica e à corrupção jamais poderia ser a abolição seletiva das leis.

Todo tirano pode dizer que faz isso, revogar leis para promover justiça, com a melhor das intenções. O desafio é exatamente organizar o Estado sem desarticular o que a sociedade levou séculos construindo. Apesar da estética duvidosa a ascensão de um novo gênero de político — que é tudo menos apolítico —  não é só um sintoma isolado da falha grave dos antecessores. Mostra que o sistema está cedendo. Esta nova classe de políticos representa o protesto, inútil, contra a ideologia de um funcionalismo viciado, que por sua vez gerou distorções em cadeia: no papel decisivo da divisão de poderes, criando importantes reflexos nos meios de comunicação. A mídia organizada precisa recuperar a neutralidade se pretende não ser substituída. O risco é chegarmos ao futuro somente com acusações de fake news de parte a parte. Filtros aplicados à realidade dependem, hoje, do viés com que o furo editorial é dado. Uma mesma notícia sofre com manchetes à moda da casa. A verdade não foi só interditada. Sob o pretexto de desmistifica-la ela acabou vitima do excesso de interpretações. De nenhuma forma foi um caso isolado. Quando a cautela condenou virtudes para coroar vicissitudes — desde que declamassem ideologias — a verdade foi demonizada sem chances de defesa. Seus advogados destituídos para dar lugar a dativos despreparados para redigir um simples habeas corpus.

Corre-se o risco de que quando enfim terminarem de passar o País a limpo, ninguém mais saberá como redesenha-lo. A sede por justiça — que nunca foi tão tarda — passou a ser substituída por linchamentos eletrônicos. Por que ninguém ainda concebeu um sentido mais amplo e sofisticado de justiça do que a privação da liberdade? Por exemplo, os políticos que fossem condenados por provas incontestáveis? O que será que as cortes poderiam ordenar como penas alternativas: prestação de serviços à comunidade? Não foi exatamente ai que falharam? Isso seria pedagógico para os casos considerados recuperáveis? Uma pena alternativa seria faze-los viver a experiência de não serem adequadamente governados, desta vez sem poder, sem carros blindados e sem auxílio moradia.  Não seria vingança. A submissão de legisladores corruptos à maus legisladores seria uma experiência sobretudo didática.

Os procuradores tem razão que prejuízo à economia não é razão suficiente para frear investigações.  O mal feito recorrerá e voltaremos ao circuito do horror fiscal liderado desta vez liderado por algum tipo de neo lulopetismo com novos e velhos associados. Mas que estas corajosas pessoas também aceitem frear o ímpeto voluntarista, importante como motor inicial, mas completamente dispensável em fases mais adiantadas como as atuais. A indução geral ao clamor de uma justiça que passa por cima dos preceitos constitucionais vai contra o principio geral que nortearia a aspiração por condições mais justas e equânimes. Se a alegação é de muitos políticos e alguns empresários construiram alianças estratégicas para legislar em causa própria, a generalização de que todos são assim só interessa aos que desejam se safar em meio ao oceano de denúncias.

A civilidade com a canalha é essencial. A elegância política, um estilo a ser preservado. Não podemos morder a isca cuidadosamente preparada nas águas rasas da República. O anzol está pendurado para que, em nome de alguma virtude abstrata, aceitemos banimentos, apoiemos discriminação, difundamos intolerância e espalhemos ódio gratuito com clicks impensados. Nossa vingança será recusar enlouquecer junto com todos eles. A insensatez não merece solidariedade.

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