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A ordem dos fatores altera a notícia

Paulo Rosenbaum

12 de janeiro de 2020 | 12h54

 

Depois de testemunhar uma das ações antiterroristas mais bem sucedidas dos últimos anos, observa-se uma postura perturbadora entre os eleitos de determinadas  castas políticas e também em parcela não insignificante da mídia nativa e internacional. O núcleo duro deste texto não visa analisar a situação geopolítica- militar, mas jogar luz e especular sobre o significado ético desta insólita rede de simpatias angariadas pelo comandante neutralizado.

Sem um atento recenseamento cronológico e uma análise da sequência dos fatos não será possível verificar a primeira falácia: a de que o ataque inaugural partiu dos norte-americanos.

Em qual contexto que a eliminação do comandante foi pensada e planejada? Ela veio apenas depois que ações orquestradas pelo próprio Suleimani mataram um americano. A resposta veio com o ataque contra a milícia que a praticou. Ataque finalmente usado como álibi para a invasão da embaixada americana no Iraque. Em seguida, os iranianos  retaliaram não sem antes avisar onde  quando iriam despejar os foguetes. No meio tempo abateram o avião ucraniano vitimando mais civis inocentes.

O Irã vem  praticando de forma acintosa uma semi impune política expansionista e — via de regra — usa milícias e exércitos terceirizados como os grupos terroristas Hamas e Hezbollah para, instrumentalizando-os, buscar a hegemonia no Oriente Médio através de ações desestabilizadoras.  O objetivo é claro, instalar-se ou a seus subordinados em países como Yemen, Líbano, Líbia, Síria e Iraque. O regime não hesita em prender e torturar jornalistas, dissidentes e homossexuais e tem uma das mais atrasadas políticas em relação aos direitos das mulheres.

A simpatia recôndita, mas intensa, por um dos mais ardilosos criminosos seriais de nossos tempos merece reflexão. A cobertura da eliminação do arquiterrorista teve uma abordagem surpreendentemente crítica não só ao timing como à própria operação executada pela atual administração americana.

Suleimani, não foi só o responsável direto por atentados e massacres contra populações civis e militares para além das fronteiras irarianas, mas também ordenou assassinatos de minorias e de compatriotas da oposição iraniana, que o considerava seu maior inimigo. Muito recentemente ordenou que snipers se posicionassem em cima de prédios e eliminassem os manifestantes. Pelo menos 1.500 pessoas morreram enquanto protestavam contra o regime dos aitolás, Ele era também o articulador de grupos terroristas, mais conhecidos como proxys, que atuavam em múltiplos países e frentes.

Pois eis que logo após o evento e, até hoje, experientes políticos e jornalistas visitavam mídias para exercer funções proféticas e catastrofistas que culminariam com  a eclosão da terceira guerra mundial.  Reações que sugiram, especialmente, entre aqueles partidos e publicações que se auto intitular progressistas.

O ápice do paradoxo, entretanto, talvez tenha partido de redes de Tv e agencias de notícias que logo após o abate da aeronave que vitimou 176 pessoas entre os quais 57 cidadãos canadenses, apontou seu dedo para os americanos como culpados pelo crime de guerra. Situação que só mudou após o reconhecimento de que o ataque teria partido de baterias anti-aéreas iranianas, para então ser amenizado pelo indulgente título de “erro humano”.

Além disso, diante de uma comunidade internacional abúlica, o Irã tenta conquistar a tecnologia nuclear e nem esconde mais suas pretensões beligerantes e ou chantagistas. Ora, dirão, mas e quanto ao natimorto acordo nuclear? Hoje até as pedras sabem responder a quem melhor serviu a tapeação. Decerto não ao interesse das democracias ocidentais.

Some-se a isso a informação que o atual Irã não é um País que conta com eleições livres. O que se vê, de tempos em tempos, são shows, simulações cosméticas caras, onde todos os candidatos são indicados ou avalizados por aiatolás.

Como a inteligência americana e britânica já desconfiavam, e Israel demonstrou documentalmente, os aiatolás comemoram até hoje o tempo extra que obtiveram para o desenvolvimento de tecnologias alternativas para enriquecimento de urânio e plutônio, e de um vasto programa militar.

Além  é claro, da benemerência do envio de 1,7 bilhões cash que a administração Obama cedeu aos teocratas de Teerã. Recursos muito bem-vindos para planejar a construção de mísseis balísticos, com e sem explosivos, e pavimentar à hegemonia geopolítica sonhada pela guarda revolucionária do país persa.

Quais afinal os motivos que levaram ao frenesi de acusações contra os EUA — que contaminou as redes sociais — num verdadeiro surto agudo da já velha conhecida psicose anti-norte americana? Psicose que, aliás, assume contornos de fanatismo religioso que os agrupamentos bem pensantes, supostamente, combatem.

O sintoma mais ridículo e birrento desse dogmatismo, é a cultuada antipatia pela administração do atual governo norte americano. Antipatia que, à parte da aversão racionalizada sob a figura de Trump, tem sido uma máscara conveniente.  A histeria contra Washington refere-se antes à desconstrução de uma política avestruz, isto é, a omissão diante do crescimento assustador de uma ameaça em vias de tornar-se insolúvel, se e quando as ogivas estiverem a postos para usufruto do alto clero xiita.

Perigo que é, num erro analítico crasso, é tomado como ameaça exclusiva a Israel e aos Estados Unidos.

Sem medo do registro, o regime iraniano e suas ramificações que já chegaram até a Venezuela e à Tríplice Fronteira é a mais desafiadora ameaça ao mundo desde que os nazistas conquistaram o poder na Alemanha. Obviamente não pela força militar atual, mas pelo antissemitismo e antiamericanismo, que junto carreiam uma pregação fanática contra os valores de liberdade e democracia, para bem além de um mero conflito regional. Decerto a matriz e a inspiração são análogas, com variantes na apresentação e no tipo de justificacionismo.

A resistência seletiva de sociedades e governos em enfrentar o problema, resistência majoritariamente pautada pela ideologia e por uma razão instrumental, é, hoje, o elemento chave para compreender porque o terror avançou, intocável, nas últimas décadas.

Quando se trata de terrorismo só existem duas saídas, redução de dano ou perda total.

 

 

 

 

 

 

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