Paz, incursão ao ciclo de 5779

Paz, incursão ao ciclo de 5779

Paulo Rosenbaum

09 Setembro 2018 | 02h53

Escriba (sofer) finalizando um sefer Torá. (o pentatêuco)

Em todo final de ciclo já prospera o recomeço. Antes, observem bem os semblantes das pessoas. Estarão mesmo atentas?  A história é afoita e se desenrola com celeridade. A velocidade com que ela espalha e as repercussões que causam parecem ser mais determinantes do que os próprios acontecimentos. A violência política precede os atentados. A primeira vista parece indicar que, ao oferecer paz,  subentende-se guerra. E assim, sucessiva e permanentemente.

Antes da inação das instituições, o clima que vivemos evidencia o descontrole da linguagem. A domínancia de palavras com significados invertidos prenunciam a anomia. Assim como nas ruas atuais, a ameaça é que, inspirada na hesitação dos poderes públicos, não obedecer leis nem regras de organização ameaça tornar-se norma. E é assim, ensina a história, que o sentido das coisas se dissipa. No domínio das causas e das militâncias, preferimos ter razão à construção de consensos.  Os mínimos múltiplos comuns das sociedades foram perdendo substância. Subsistem sem força, enquanto o ponto de união foi se diluíndo em sucessivas subdivisões. Quem pregou o marco zero, o nunca antes, desprezava a história, e não imaginava como ela pode ser ciumenta.

A prioridade tem sido ideologia em detrimento da verdade. O drama, substituindo a realidade. A história não se repete como farsa, mas, com ajuda de farsantes, ela tem promovido diverso efeitos nefastos. A história é neutra. Mas a má hermeneutica e suas orquestras amestradas a retorcem. A filosofia instrumental que a deforma. A alusão às doutrinas arremata a falsificação. São as notícias simultâneas e díspares operando no cadafalso da desinformação. No rastro dos sistemas de notação.  Conforme as observações do rabino-sociólogo Adin  Steinsaltz tem sido graças à esta “sociologia da ignorância” que os homens, sem se dar conta do tamanho do engano, aderem ao terror hobbesiano de “todos contra todos”.

A paz? Seria a exceção. Sua bandeira? Está representada pelo acolhimento da dignidade das dissidências.

O que esperar se os homens já não se reconhecem como parceiros da mesmíssima matriz? Se desprezam o tecido que os mantém semelhantes? Já não se apoiam nos critérios que numa teologia desmistificadora reafirmam a natureza sagrada da vida. Desatentos à própria origem, podem mudar de lugar, fazer rodízio no poder, criar novas tecnologias, mas ignorando suas matrizes comuns, nada podem cultivar, muito menos a cidadania. Passam a não mais notar a presença das múltiplas perspectivas. Ignoram a necessidade de um novo giro copernicano, onde para existir como sujeitos, precisamos anteceder o Estado e sermos servidos por ele, não o contrário. As pessoas devem ser prioritárias, antes dos regimes políticos e sistemas de pensamento.

Por sua vez a paz é nascente que surge de uma outra matriz. Irracional, a paz nasce de uma paixão e chega a ser nonsense se considerarmos exclusivamente nossa natureza biológica. Um ímpeto contrario às pulsões mais comuns. Ela significa concórdia ou, como queriam os gregos, “fechar o templo de Jano”. A paz é capaz de nos impelir ao paradoxal ponto de amor aos oponentes. Aceitar a alteridade é só aparentemente uma ingenuidade, ainda que o altruísmo contrarie a ideologia da superação. A paz, em seu sentido universal, recusa a dialética grega ocidental para adotar o estranho e incompreensível espírito dialógico do Talmud.

Ainda assim o metasignificado da paz permanece desconhecido. É mais do que colocar as armas em sarilhos. Mais do que compor-se com inimigos. Está além da fusão de antagonismos. Pois depende da aceitação do deslocamento de um único ponto de vista. Para além da simplificação do contraditório. Como na revolução promovida pela famosa camera de Orson Welles em Cidadão Kane: a sincronicidade da coexistencia, as múltiplas perspectivas que se desdobram em existências únicas. É com isso, e só com isso, que a democracia deveria se ocupar. Com o sujeito e suas idiossincrasias.  Só assim a tentação totalitária seria contida ou dissipada. A ilusão de uma ordem construída de fora para dentro seria abandonada. E expulsaria da imaginação social a fantasia de hegemonia, predomínio e supremacia. E também da contra-hegemonia e dos discursos instrumentais do ódio.

É assim que a interlocução poderia não se reduzir a detalhe supérfluo. Que muitas miradas contemplassem-na ao mesmo tempo e enxergasse as paisagens estranhas umas às outras. Que neutralizaria a ilusão dos portadores do monopólio absoluto da razão. E, como no Aleph de Borges, inúmeras moradas contém sincronicamente todos os pontos de vista e nenhum.

É desta simultâneidade não excludente que o respeito mútuo, essencial ao convívio em uma sociedade aberta, se alimenta. É a maturidade possível, na qual se pode assumir que tão cedo — ou nunca — haverá perfeição. E que enfrentaremos melhor as marés oscilantes na renúncia ao belicismo, sem concessões à exigência do justo.

Chance para recolher o que há de melhor

sob o chamado instigante

no peculiar tom

do toque do berrante

Shaná tová e shalom