A seriedade era só ameaça.

A seriedade era só ameaça.

Paulo Rosenbaum

04 Maio 2013 | 20h25

“Os 25 condenados do mensalão apresentaram recursos – embargos de declaração – em que pedem revisão das respectivas penas. Cinco deles, incluindo o ex-ministro José Dirceu e o ex-presidente do PTB Roberto Jefferson – que denunciou o esquema -, querem tirar o presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa, da relatoria do julgamento.”

“O procurador-geral da República, Roberto Gurgel, disse nesta quinta-feira, 2, que resta aos condenados por envolvimento com o mensalão se conformar com as penas. De acordo com Gurgel, os recursos que os réus protocolam no Supremo Tribunal Federal (STF) até esta quinta contra as condenações não terão o poder de reduzir as penas.”

“O ex-ministro José Dirceu (Casa Civil), condenado a 10 anos e 10 meses de prisão por corrupção ativa e formação de quadrilha no processo do mensalão, quer o afastamento de seu algoz, o ministro Joaquim Barbosa, presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), da relatoria dos autos da ação penal 470 e sua redistribuição para outro ministro da Corte.”

 

— Está tudo nos autos, não? Por que a substituição?
— Conflito de interesses!
— Insustentável. Não procede, afinal nós magistrados
— Ah!

Em seguida, o advogado arremata

— Os Srs. ainda não entenderam?
— Neste recinto tente usar a palavra apropriada: Meritíssimo? Reagiu tímido o Juiz calvo.
— Sim, mas é claro, Me re tí ssi ssi mo! A ironia com o superlativo errado deslizava fácil na boca.
— O Sr. defensor poderia escolher um de nós por favor, não temos o dia todo.
— Precisamos de tempo, quer não pressionar?
(O réu cochicha algo no ouvido do advogado, enquanto limpa da boca pedaços da bomba de creme)
— Dois dias. Faz dois dias que estamos à vossa disposição! Protesta o decano da Corte, recostado na parede áspera.
— Pode moderar o tom, me ri tí ssi mo? Meu cliente tem direitos garantidos. O defensor avança para bem perto do árbitro acuado. Balança a constituição recém editada na gráfica do Senado Federal e complementa com positividade:
— Levaremos o tempo que for necessário!

O juiz de humor colérico fez que iria levantar e desistiu depois de bufar para o colega ao lado.

— Por que nos submetemos a isso? O mundo está de ponta-cabeça?
— As leis, eles controlam as leis.
— Os direitos? Sem deveres?
— Devíamos ter percebido antes, cochichou o árbitro calvo. Reeditam uma constituição ao ano. Agora é tarde!

Enquanto isso, o advogado puxa seu cliente de lado

— Escolha logo um ou vamos embora daqui e fazemos isso lá do gabinete. Depois vão fofocar que ficaram trancados.

— Só exercemos nossos legítimos direitos. Eles que mofem!

*

Um novo juiz foi nomeado e imediatamente escolhido como relator. O resultado da anulação saiu antes do final do dia. O novíssimo resultado foi publicado no Diário Oficial no primeiro dia útil da semana seguinte.

Para alívio geral em Brasília, a seriedade era só ameaça. Mais uma vez, tudo de volta aos trilhos.