A Vitalidade do Livro 2- Uma investigação sobre o estado da arte – Sebastião Lacerda

A Vitalidade do Livro 2- Uma investigação sobre o estado da arte – Sebastião Lacerda

Paulo Rosenbaum

10 de junho de 2022 | 01h34

A VITALIDADE DO LIVRO 2- Uma investigação sobre o estado da arte

Entrevista com Editores

Conto de Notícia – Estadão

Dando prosseguimento às entrevistas de caráter multidisciplinar, convidamos o Editor Sebastiao Lacerda que concedeu uma entrevista para o Conto de Notícia

João Ubaldo Ribeiro, Jorge Amado e Sebastião Lacerda. (Foto selecionada do acervo do Entrevistado)

CN – Sebastião, considerando que todas as estimativas eram de que até o final de 2021 esboçava-se alguma reação na economia e, hoje, estamos diante de um cenário incerto com a paralisia induzida do comércio, indústria, e da sociedade como você vem enxergando o impacto da crise motivada pela pandemia no mercado editorial brasileiro?

SL Criando uma situação mais difícil para todo o país e para o livro, claro…

Blog – E quanto aos colegas editores e toda a cadeia de livrarias, que tipo de relato tem chegado até você?

SL- Exatamente o retratado na resposta anterior.   

Blog- Como um dos publishers com relevantes inserções internacionais o que os seus contatos do mercado externo têm observado? Quais as similaridades e diferenças?

SL- Há muito anos não tenho contato com o mercado externo, pois a Nova Aguilar, sendo uma editora de livros diferentes do livro comum, e baseada mais fortemente em clássicos e de literatura em português, não tinha essa necessidade. E há muitos anos não sou mais um publisher com relevante inserções internacionais…

Blog- Também existem poucos veículos de divulgação especializados em literatura, e daqui em diante, feiras literárias e bienais de Livros, tendem a ser novamente postergadas. Não seria cada vez mais importante repaginar a divulgação e recriar a tradição, por exemplo, depoimentos de escritores na TV aberta, documentários, e trazer de volta os cadernos especializados nos grandes jornais?

SL– Realmente, os anos de 2020 e2021 foram um tempo de destruição de muitos dos laços já criados e existentes entre a edição e seus leitores, como suplementos ou cadernos de livros ou até mesmo seções mais generosas na imprensa, mas com uma recuperação, ainda que um tanto débil, todos já contam com algum ponto de resistência e a pandemia, se recrudescer, não parece ser tão forte e drástica como em momento anterior, o que deixaria a margem de resistência dos envolvidos com o livro um tanto melhor e mais aparelhada para crises do que antes.

Blog- Pelo que você relatou em entrevistas prévias, o público leitor já estava em processo de transformação, buscando, talvez, um outro tipo de narrativa?  Poderia nos falar mais a respeito destas novas demandas?

SL– Sim, certamente, o progresso era bem notório e notável….

Blog- O “contexto recreativo” se contrapõe à chamada alta literatura? Podem ser complementares? Inter excludentes?

SL– Nem todo livro com “contexto recreativo” me parece necessariamente pernicioso a ninguém, nem a literatura classificável como “séria” tem acesso garantido às estantes de leitor sério e contumaz. Havendo qualidade e empenho, tudo me parece possível e de fácil convívio. Não me parece que Stanislaw Ponte Preta, por exemplo, seja “literatura séria”, mas tem qualidade, portanto, a meu ver, o autor virou até um clássico, sendo reeditado mais de quarenta anos depois e, ao que me parece, com algum sucesso. Não muito, talvez, mas o quanto pode ter sucesso nas vendas um autor já clássico.

Blog – Quais aspectos impactarão — ou já impactaram — o mercado editorial quando colocamos em perspectiva uma inevitável aceleração da revolução digital e seus instrumentos, tais como home office, webinars, leitura digital? Isso significa necessariamente uma modificação nos hábitos de leitura e consumo de livros? Imagina que tais mudanças serão permanentes?

SL– Acho que as novas tecnologias na criação de livros já impactaram o mercado com a enorme facilidade e muito maior rapidez na confecção dos livros, inclusive na criação deles, ainda no momento autoral delas. Ou não é verdade que os processadores de texto atuais dão maior velocidade ao escritor? Não há mais rabiscos de canetas bic, o texto de descongela a um toque, abrindo-se a qualquer alteração desejada, ou seja, deve ser possível fazer-se um cálculo de que a média de um escritor poderia ser de fazer 20 páginas por dia e ele passa a ter a possibilidade de fazer umas 45, pelo menos… Como não conheço o cálculo destes, o “chute” é mais ou menos livre, mas vale como opinião…

Blog – Considera uma concorrência “quase desleal”: a passividade da projeção da luz das smart TVs e telas de alta definição sobre nós, requer apenas um controle remoto, e um assento confortável, enquanto a leitura envolve outros mecanismos de percepção e estimulo intelectual, e, seguramente, mobiliza outros recursos.

SL– Em compensação o que se aprende na leitura de um livro interessante, ficção ou não-ficção uma boa série de televisão demoraria uns 50 anos para ensinar… Creio que isso não a torna desleal… Apenas diferente. E muito diferente.

Blog  –Considerando sua extensa experiência editorial e compreendendo o momento muito particular, e sem precedentes da história recente, você gostaria de apresentar algumas sugestões de estímulos e incentivos, não necessariamente governamentais, para aumentar o interesse do público nas atividades literárias?

SL– A restauração de vários processos de controle da Lei Rouanet, que desde os governos do PT vem sendo encarada como um assalto aos cofres públicos, o que pode ter acontecido e muitas vezes, mas jamais transformou-se em regra. E, para isso, é certamente indispensável a maior democratização possível nas inscrições e nos financiamentos. Já há provas e internacionais estas, de que este tipo de apoio à atividade livreira e editorial é muitíssimo bem-sucedido e verdadeiro foguete de impulsão na quantidade e, sobretudo, na qualidade produzida nos países. Isso me parece absolutamente indiscutível… Olhem a França e a Suécia, por exemplo. Para não falar naquele país ao Norte, tão citado por aqui…

Blog – Como sensibilizar os agentes financeiros para investimentos em outras formas de distribuição? No caso de pontos de venda, por exemplo, seguir os cânones norte americanos e vender livros em farmácias, lojas de departamento, nas estações de metrô?

SL– Tudo é possível. Se o leitor está interessado, ele pode comprar livros em qualquer lugar. Só me parece indispensável que primeiro se formem leitores nas escolas e universidades o que faria com que os livros também fossem bem mais procurados, fazendo com que tivessem a necessidade de serem mais oferecidos, o que custa caro…                                  

Blog – Como um dos mais experientes editores do País quais foram suas experiências mais insatisfatórias e as mais gratificantes no trato direto com os escritores?

SL– Aborrecimentos com autores tive muito poucos na minha vida, pois respeito muito escritores, é difícil começar e acabar um livro com um mínimo de interesse para um cidadão qualquer, o que já é absolutamente respeitável, o esforço deve ser reconhecido e levado em conta na relação pessoal, a meu ver. A quantidade de amigos e de amigos constantes que fiz nos 57 anos de vida profissional não é grande o suficiente para caber aqui, mas cabe direitinho no meu coração…

Blog – Quais mensagens você deixaria para um escritor iniciante? E para os escritores veteranos?

SL – Comecem a escrever seriamente e continuem a escrever seriamente…

Tenham compromisso e continuem a ter compromisso…

João Ubaldo Ribeiro entregando os originais do “Viva o povo brasileiro a Sebastião Lacerda (foto selecionada do acerco do entrevistado)

João Ubaldo Ribeiro entregando os originais de “Viva o povo brasileiro “ para Sebastião Lacerda. (Foto selecionada do acervo do entrevistado)

 

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