Abusos intelectuais

Paulo Rosenbaum

11 Outubro 2016 | 15h38

Alguns professores e articulistas vem afirmando que identificaram uma luta perturbadora e obscurantista contra o intelectualismo. Na verdade, como todo campo especulativo pode ser apenas mais um diagnóstico precipitado. A crescente objeção pode ser contra a abundância de intelectuais que abusam da inteligência das audiências. Que generalizam o irrepetível. Que asseguram que detém a fórmula. Que vislumbram o que sequer imaginam. Que enquadram o que não pode ser classificado. Que tomam hipóteses por teses comprovadas. Que asseguram a instabilidade e desestabilizam o que tranquilizaria. Como confiar em distorções prudentes? Como aceitar posturas peremptórias onde deveria prevalecer o esforço para contornar os dogmas? Caberia exatamente aos intelectuais que se tomam por notáveis exceções do senso comum — pois supostamente pensariam melhor que a média — assumir seus equívocos antes mesmo que estes tivessem sido exibidos de forma humilhante em praça pública. Mas, antes, muitos consideram demais fazer concessões à realidade. Imaginam que a coerência tem um valor unívoco, muito maior do que toda autocritica. E, assim, o erro erudito, que era apenas uma hipótese científica falseável se transforma em mito. Dai ao slogan repetitivo é só mais um deslize justificacionista.

Isso é um intelectual?

Nosso atual status de ausência de diálogo significa que, para desarticular a progressiva indignação do senso comum com os excessos dos intelectuais — sem mergulhar no mérito de justificativas políticas ou da devoção ideológica — acusa-se toda a plateia de não ter entendido corretamente o papel do pensador na sociedade. Mas essa aversão nada mais é do que o arrastado resultado de uma distorção ainda mais longa. O papel do pensador é para além de analista social, um crítico do poder e de seus protagonistas. O que ocorreu na última década no Brasil, quiçá no mundo, é que uma parcela significativa da elite universitária passou a defender consensos costurados num endogenismo quase tribalista. Em geral à revelia do meio e da população. Mais do que defesa da causa pregava-se um gênero específico de agenda política que passava a ser corroborada por contaminação. A disciplina foi cooptada, professa-se  liturgias, não aulas. O sistema de notação se transformou em uma tragédia pois reforça o erro. E a filiação intelectual uma herança de sangue onde o leigo deve engolir o que o mestre disse.  Isso é, aceitava-se que aquilo que parecia consenso era de fato o resultado de um grande acordo. O acordo que o mundo inteligente e bem pensante concebeu para todos os mortais. Não lhes ocorreu que nenhuma teoria tem um átimo da consistência da realidade. Nada mais distante do mundo empírico do que a persistência da especulação baseada em ideias multiabrangentes. E esta pan-agenda foi expandida de tal forma que passou a demandar engajamentos cada vez mais alinhados. O resultado previsível é que o compromisso determinou o obscurecimento progressivo do sentido analítico destes agentes. Não se tratava mais de pesquisa e análise mas de vulgarizar sínteses construídas por sectarismos engajados. Será ainda preciso ir muito adiante para perceber o fracasso que estas diretrizes legaram à educação e à sociedade. Será preciso purificar — esta é a palavra com todo seu peso filológico  — as cátedras dos vícios doutrinários.  O estrago produzido por tal estágio de encarceramento mental não é mais monopólio de progressistas ou de conservadores. Ainda que a esquerda tenha obtido êxito em sua semi hegemonia, a tentação abusiva é a mesma do outro lado. O perfil para ditar muito similar. Este protagonismo sacrificou ao momento não só as ideias como o próprio papel de quem precisa repensar o processo da história que nos fez herdar este impensável instante da República.

Os intelectuais deveriam, antes de lamentar, apreciar a desconfiança que inspiraram. A decência os obrigaria a uma retratação. A honra e a honestidade à uma revisão completa. Não é realista, poucos o farão. Estão demasiadamente preocupados com a imagem pública para a plateia. E aflitos com o rótulo da capa. Ainda não notaram que o espelho, quando descasca, reflete apenas fuligem.