Achados de Biblioteca

Achados de Biblioteca

Paulo Rosenbaum

17 de fevereiro de 2020 | 07h50

O blog Conto de Notícia tem recebido muitas publicações. Uma vez por semana faremos uma estante “Achados de Biblioteca“com mini resenhas elaboradas pelos autores e comentaristas.

Maria Zilda Ferreura Cury; Lyslei Nascimento (Org.). O olhar enigmático de Moacyr Scliar. Belo Horizonte: Quixote+Do Editoras Associadas, 2019. 277p.

O livro O olhar enigmático de Moacyr Scliar é o resultado da comemoração aos 80 anos do escritor na Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais, realizada em 2017. Os ensaios publicados são, portanto, fruto de um olhar contemporâneo sobre a obra do escritor, enfocando não só sua requintada produção ficcional, propriamente dita, mas também sua atuação como um arguto cronista da vida cotidiana brasileira e internacional. Os temas abordados refletem o caleidoscópio que é a obra de Scliar: da literatura infantojuvenil, aos monstros como o centauro, o Golem eo falso Messias; passando pelas relações intertextuais com Kafka, Machado de Assis e a Bíblia; além das utopias políticas, as histórias subterrâneas e as recriações das narrativas de imigrantes e indígenas. A partir dessas leituras, os autores invocam e convocam o escritor a permanecer cheio de vida entre seus leitores.

(texto Lyslei Nacimento)

___________________________________________

Nelson Ascher, Poesia Alheia, 124 poemas traduzidos por Nelson Ascher. Imago. “Coleção Lazuli” 1998, 378 pp.

“Poucas atividades literárias implicam mais colaboração do que a tradução. Em primeiro lugar, é claro, está o co-autor (geralmente involuntário) de um poema traduzido, ou seja, o autor do original. É preciso lembrar em seguida as pessoas que preservaram, transmitiram, ou redescobriram e reconstruiram ou editaram, estudaram e explicaram ou inspiraram, imitaram e traduziram anteriormente o texto, bem como os lexicógrafos que são, para um tradutor, os seres que mais se assemelham aos arcanjos”

(texto de Nelson Ascher – do Prefácio)

“Muitos dos grandes temas da poesia universal estão presentes no livro: amor, tempo, história, sexo, cidades. Mas a combinação particular deste quase-cânone de cabeceira faz cada poema iluminar os outros com um novo acento, um certo ângulo oblíquo, que faz do mundo, agora, um lugar um pouco diferente: a habitação de certo poeta judeu-húngaro-paulistano. Metamorfoses como essa são um presente raro, que a literatura não trás todos os dias. Ler ou não ler não mais exatamente uma questão.”

(Texto de Arthur Nestrovsky – Extraído da orelha do livro)

_________________________________________

Saul Kirchbaum, Presença judaica na Idade Média Ibérica, Targumin, 2008, 96 pp.

​”A destruição do Templo, no ano 70 da era comum, resultou na dispersão da quase totalidade do povo judeu e na absoluta perda de autonomia política dos poucos remanescentes. Já antes, o hebraico havia deixado de ser o idioma falado pelos judeus, suplantado pelo aramaico. Mesmo assim, o uso do hebraico como veículo de expressão intelectual nunca havia cessado. É verdade que a produção de textos em hebraico se restringia ao debate de normas, leis e comentários religiosos, à discussão de questões éticas, a poemas prenhes de louvores a Deus ou de lamentos pelas aflições de Israel. É justamente esse aspecto que torna mais espantoso e digno o surgimento, na Espanha muçulmana dos séculos X e XI, de uma poesia de caráter laico. Não apenas laico, mas muitas vezes erótico, satírico, de celebração da vida, tudo, enfim, o que não se esperaria de um povo tão convicto da sacralidade de seu idioma e tão cioso de sua vida espiritual.”

texto de Saul Kirchbaum

_________________________________________

QUEIROZ, Maria José de. A literatura encarcerada. 2ª. ed. Belo Horizonte: Caravana Grupo Editorial, 2019. 220p.

Os estudos fundamentais de Maria José de Queiroz sobre escritores que produziram sua obra na prisão, aliados a uma profunda reflexão sobre a liberdade, a literatura e a vida, fazem de A literatura encarcerada um marco na crítica humanista do Brasil. Dante, Galileu, Cervantes, Antonio Vieira, Cláudio Manuel da Costa, Tomás Antonio Gonzaga, Alvarenga Peixoto, Monteiro Lobato, Graciliano Ramos, Augusto Boal, Frei Betto, Mário Lago, são apenas alguns dos escritores que, mesmo presos, sob o arbítrio e às violências sofridas, têm suas obras descortinadas no brilhante ensaio de Maria José de Queiroz. O livro, publicado em 1984, no Rio de Janeiro, pela editora Civilização Brasileira, tem nova edição, revista, atualizada e lançada em 2019 pela Caravana Grupo Editorial, de Belo Horizonte. Num balanço contundente da literatura do cárcere, a autora escrutina memórias, depoimentos, cartas e denúncias, textos abordados como documentos imortalizados pela escrita que contesta o abuso de poder, a estagnação burocrática, o conformismo abúlico e faz do texto, o lugar por excelência da liberdade.

Maria José de Queiróz, A literatura encarcerada. 2ª. ed. Belo Horizonte: Caravana Grupo Editorial, 2019. 220p.

(texto de Lyslei Nascimento)

 

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: