Ahmadinejad vai ao céu

Ahmadinejad vai ao céu

Paulo Rosenbaum

07 Março 2013 | 08h33

“O presidente Mahmoud Ahmadinejad, do Irã, está pronto “para ser o primeiro iraniano no espaço”, segundo declarou durante cerimônia de apresentação de dois novos satélites de fabricação iraniana. O ambicioso programa espacial do regime pretende colocar um homem em órbita até 2020.”

 

— Acorde o Chefe da Guarda. Ele está no telefone.
O engenheiro sênior da base espacial meneou a cabeça, passando adiante a tarefa.
— Senhor, ele está impaciente, melhor insistir!
— Vou chamar. Só aviso que se ele estourar você quem exigiu!
O telefone falhava e ainda tinha um lapso de pelo menos 40 segundos. Ele estava em órbita há menos de 72 horas. Algo aconteceu e ele não conseguia saber o que era.
O chefe da Guarda entra e pede que abram o áudio depois de esvaziar a sala.
— Ahmed?
— Sim presidente?
— Estamos criptografados?
— Sim!
— Está no bunker?
— Sim! Na sala de concreto do 9o.piso. O que houve?
— Como estão os preparativos?
— No cronograma. Urânio à 47% presidente! Agora é questão de três ou quatro meses! A Agencia passou reto e nem chegou perto desta unidade. Um sorriso de blefe encobria um triunfo iminente.
— Vamos parar por aí!
— Senhor? A ligação está picotada…pode repetir?
— Não, não (uma tosse seca hesitante, mas de quem já assumiu a responsabilidade) Você ouviu bem! Pare a coisa toda! Daqui de cima, as coisas, não sei, têm outra perspectiva.
Ahmed colocou o microfone no mudo e se dirigiu ao vice presidente da Guarda Revolucionária:
— Chame imediatamente o Comandante Supremo!
O vice abriu os braços indicando espanto.
Ainda mantinha o áudio mudo enquanto o astronauta neófito continuava falando para ninguém
— O presidente está confuso, isso é urgente.
Como o vice prosseguisse sem entender, o mudo foi desativado
— … e já avisei, pare a coisa toda. Daqui de cima é uma esfera só, deslumbrante. Temos que resolver isso de outro jeito.
— Presidente, preciso consultar o Comandante Supremo, esta decisão já foi mais
— Ouça Ahmed. Se isso não parar imediatamente vou me comunicar direto com os jornais e espalho a coisa toda. Ordeno que parem as centrífugas. Já temos suficiente para energia, chega de loucura, alguém tem que brecar isso.
Quando o Comandante Supremo entrou impermeável na sala da engenharia as 4:31 da madrugada, recolheu seu manto e se ajeitou na cadeira estofada cruzando as pernas bem ao lado de onde estavam presidente e vice da guarda revolucionária.
O áudio foi mais uma vez cortado
— Ele fala sério? Coçou a barba pensativo e depois voltou a esticá-la.
Observavam o presidente flutuando na nave. O áudio estava mudo.
— É sério. Nunca o ouvi tão determinado! Discutimos o plano há 15 dias, como agora ele acha que pode mudar de ideia?
— Podemos mantê-lo por lá um ou dois meses? Falou grave o Chefe Supremo.
— Nossos engenheiros espaciais dizem que, por questões operacionais, ele precisa voltar amanhã.
— E desligá-lo no espaço? Falou enquanto, ainda com o áudio desligado, fez um aceno e sorria ao colega que estava livre da força gravitacional.
— Não seria aconselhável. E a nossa imagem?
— Então faça. Parem as centrifugas!

Assim que ele saiu do prédio arrastando seu longo véu os dois chutaram as máquinas e jogaram monitores no chão, enquanto os cientistas que cautelosamente retornavam ao centro de controle, retrocederam e evacuaram apressadamente a sala.

Ao fundo da unidade aprisionado numa gaiola de arame, e observando tudo, o único que se divertia.

O macaco, ainda em quarentena para observação depois que voltara do passeio espacial. Deprimido desde o vôo que o colocou em órbita, parecia ter achado de volta a graça da vida.

 

“The only difference between reality and fiction is that fiction needs to be credible.”
Mark Twain