Memórias Bem Mais Póstumas

Memórias Bem Mais Póstumas

Paulo Rosenbaum

30 Setembro 2013 | 10h15

Machado de Assis

Há 105 anos, morria Machado de Assis. Na edição de 30 de setembro de 1908, o ‘Estado’ anunciava o falecimento do literato        ‘primoroso, absolutamente sem par entre os escritores nacionais’

 

MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS
AO VERME QUE PRIMEIRO ROEU AS FRIAS CARNES DO MEU CADÁVER DEDICO COMO SAUDOSA
LEMBRANÇA ESTAS MEMÓRIAS PÓSTUMAS
Ao leitor

Que Stendhal confessasse haver escrito um de seus livros para cem leitores, coisa é que admira e

consterna. O que não admira, nem provavelmente consternará, é se este outro livro não tiver os cem

leitores de Stendhal, nem cinqüenta, nem vinte, e quando muito, dez.. Dez? Talvez cinco. Trata-se, na

verdade, de uma obra difusa, na qual eu, Brás Cubas, se adotei a forma livre de um Sterne, ou de um

Xavier de Maistre, não sei se lhe meti algumas rabugens de pessimismo. Pode ser. Obra de finado.

Escrevia-a com a pena da galhofa e a tinta da melancolia, e não é difícil antever o que poderá sair desse

conúbio. Acresce que a gente grave achará no livro umas aparências de puro romance, ao passo que a

gente frívola não achará nele o seu romance usual; ei-lo aí fica privado da estima dos graves e do amor

dos frívolos, que são as duas colunas máximas da opinião.

Mas eu ainda espero angariar as simpatias da opinião, e o primeiro remédio é fugir a um prólogo explícito e longo. O

melhor prólogo é o que contém menos coisas, ou o que as diz de um jeito obscuro e truncado. Conseguintemente, evito

contar o processo extraordinário que empreguei na composição destas

Memórias, trabalhadas cá no outro mundo. Seria

curioso, mas minimamente extenso, aliás desnecessário ao entendimento da obra. A obra em si mesma é tudo: se te agradar,

fino leitor, pago-me da tarefa; se te não agradar, pago-te com um piparote, e adeus.

Brás Cubas

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Memórias Bem Mais Póstumas

Tudo consumido, passado século e meia década, volto para dizer aos que esta é só uma penúltima comunicação antes que se suma de vez. E, sem constrangimento, peço aos leitores que esqueçam os autores, lembrem das obras.

O entendimento é retrospectivo e só agora pude realizar que não deveria ter confessado e registrado que um livro tenha uma escolha como, por exemplo, a de ser destinado para poucos. Nunca ousaria tanto elitismo, como foi o caso deste primeiro prólogo. Hoje, de onde escrevo posso estimar melhor:  um livro redigido para atrair o leitor pode apresentar evidentes vantagens. Mas os originais baseados em trabalho e autenticidade, ainda que não promovam glória, fama ou riqueza, confere ao autor a sensação, decerto injustificável, de algum dever cumprido. Isso é, melancolia, galhofa e experiência são insubmissas. Nem aí, nem aqui o cabresto lhes presta. O mundo, imagino, mudou, menos a sombra, a opinião e a risada.  A mensagem é que os finados, mesmo imortais, não mais reagem à picada do insulto, nem à alegria do elogio. Não é que tenhamos nos livrado dos críticos, nem atingido a equanimidade, nos falta um teco de presença de espírito.

Ainda Brás Cubas