Alalshak, a grande Península

Alalshak, a grande Península

Paulo Rosenbaum

17 de setembro de 2017 | 02h03

(Foto PR – Glaciar em Juneau)

 

 

 

 

 

 

O Alaska é um caminho, despovoado, eólico, chuvoso. As geleiras não desaparecem, moveram-se ao sul. Recuaram, e hoje escorrem, flocadas, numa lama medicinal formada a partir do esmagamento das rochas por pressão dos glaciares.

Mais ao norte, pouco antes da Península Valdez a corrida ao ouro ainda não terminou. Nossos sonhos de conquista são a de todos os pioneiros, acesso, sucesso, e no fim, não regresso. A vida é mais cara dizem os locais atuais, mas o panorama compensa a decadência financeira. Os aleutas e esquimós são mais difíceis de contactar. Sua língua, a inuite, impossível de ser escutada. Justo ela que tem mais de cem definições apenas para a palavra neve.

Os colonos de hoje são pilotos do Arizona, motoristas do Texas, comerciantes de tanzanita de New York, atendentes de bar de Dakota ou garçons da Indonésia. O turismo é impecável, encontra-se um pouco acima da natureza.

Desde que em 1879, o escritor e naturalista John Muir (1838-1914) um dos principais idealizadores de parques e reservas naturais norte americanas, descobriu que as coníferas do Norte estão dispostas lá desde sempre, e a formação dos glaciares parecia  ter sido interrompida.

Hoje se sabe, a rarefação dos cristais aprisionados pelo gelo geraram o brilho azul- estanho, e assim a água vertida para um outro estado de matéria se fixa na imaginação do mundo. A tonalidade turquesa, ilusão de ótica, sem o contrapeso da realidade, sem parâmetros para daltônicos, provoca o choque cromático. Um golpe de vista que leva a cor até o olho, o qual não foi avisado que, persistente, ainda enxerga o que a ciência desconstruiu. Mas lá está ele, azul, poroso, fixo, qualidade indiscutível.

Quem já provou da agua do degelo? Garanto, não é insípida, incolor ou inodora. A agua do degelo desce como destino impreciso, aquele que não sabe se escolherá uma rota até o sal do Pacífico ou deslizará até formar lagos alcalinos providenciais.

Aquele que se impõe pela corredeira, que se exalta por um caráter firme e indisponível às revisões. A realidade corre aqui como os corvos que anunciam, aos chilros, o fim da estação. O dia aqui nunca foi o de esquimós no país das sombras longas, mas de um dia que dispõe de brilho efêmero, cortante, e cujo rasante nos retira o sangue da cara. A rarefação do ar retira os insetos para inserir tonalidades inesperadas. Perplexidade, a única reação possível para um céu que migra amiúde. Mas, dirias, todos os céus migram. Só que este é mais rápido, mais evidente e mais contundente.

Por todo lado, nesta Amazônia de cima, as aguas descem como cronômetros de guilhotinas. E como laminas cansadas deixam-se levar pela gravidade. Levam ao ar multidões de partículas da negantropia, que suspendem o juízo daqueles que tinham tudo planejado. Um ensaio sobre o Alaska não seria mais sobre ursos e baleias, golfinhos ou salmões, mas acerca de um vento obliquo, que atrapalha as rotas, que desvia os navios. Que encanta pela exaustão. Seria sobre um lugar sem espaço regular na cartografia.

Tudo que se define como “passagem de dentro”, o maior corredor marítimo preservado do mundo, é um destino a ser aspirado. Como turista, visitante ou curioso, num acampamento, num cruzeiro ou dentro de botes salva- vidas o banho que dessaliniza é um pouco da surpresa que ainda há no mundo. O lugar que ainda corre para se opor as elucidações predadoras, aos campo devassáveis por curiosos sem imaginação.

O Alaska peca pelo excesso. De mistério, de inadaptabilidade, uma terra de índios sem emancipação, de uma cultura que foi destruída sem sequer ter sido redescoberta. Um território comprado dos russos, que é hoje um País reduzido a um Estado.

A grande península grita por ser extremo sem nostalgias. Mesmo assim, as saudades já se fazem sentir muito tempo antes, muito antes de que tudo acabe.

 

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