Alarmismo patofóbico e seus Impactos

Paulo Rosenbaum

04 de março de 2020 | 13h55

Elaborei  algumas perguntas sobre a epidemia do novo vírus covid 19 (genericamente conhecido como coronavirus). Primeiramente entrevistei o Prof. Dr. Paulo Saldiva Médico Patologista, Professor  de Medicina, Titular da Cadeira de Patologia da FMUSP, Diretor do Centro de Estudos Avançados da Usp. Abaixo as sábias e precisas orientações do professor.

“Os coronavirus circulam entre nós há muito tempo. Identificados ao microscópio eletrônico nos anos 1960, provavelmente respondem por uma proporção minoritária dos quadros gripais que experimentamos.

Os estudos de biologia molecular identificar 4 subtipos que circulam entre os seres humanos, que são responsáveis por quadros clínicos brandos. Variantes dos coronavirus que circulam em animais “pularam”para a nossa espécie em 2002 (SARS, taxa de letalidade ao redor de 7%), 2012 (MERS, taxa de letalidade de 30%) e agora na China (COVID19, taxa de letalidade entre 1 a 2%).

Como ocorre nestes casos, a ausência de memória imune leva a quadros mais graves, inlcuindo pneumonia hemorrágica pela cytokyne storm. Em relação aos episódios anteriores de COVIDs epizoóticos, o COVID19 apresenta uma mutação da sua cápsula proteica que aparentemente lhe confere maior capacidade de aderência ao epitélio respiratório, que se traduz em maior contagiosidae.

Possui também um tempo de incubação assintomático mais longo, ao redor de 15 dias. Maior contagiosidade e tempo de incubação mais longo representam dificuldades adicionais ao controle e, portanto, creio que, assim como aconteceu com o AH1N1, o covid 19 visitará todos os continentes.

Mesmo assim, não creio em tragédias e, no caso do Brasil, a vigilância epidemiológica funciona bem, até por razões históricas (Oswaldo Cruz e o movimento sanitário). Portanto, o temor que hoje sentimos (por exemplo, o esgotamento de máscaras cirúrgicas nas farmácias de Sampa) é desmesurado do ponto de vista racional, porém compreensível dado o papel simbólico que as epidemias febris representaram para a sociedade humana. (grifo nosso)

Creio que nós, profissionais da saúde, deveríamos apreender com os artistas as raízes deste medo que hoje nos acomete.

Fiz até um pequeno vídeo sobre isso https://www.youtube.com/watch?v=F8hg-hqaHZA&t=152s”

________________________________________________________________________________________________________

Iremos continuar a divulgar informações as quais, por um lado, ajude as pessoas  a se proteger de forma plausível das ameaças e meiopragias, e, de outro, denunciar a enorme campanha de instrumentalização do medo.

Manipulação que direta ou indiretamente afeta não só a liberdade individual como nos aproxima de um hiper-controle quase policial. Ninguém tem todas as respostas e como desabafou o diretor da Organização Mundial da Saúde “estamos em um terreno desconhecido.” Infelizmente isso não diminui o alarmismo, pelo contrário, alimenta-o. Esta epidemia mostrou-se calaramente que os portadores de doenças crômnicas é que são os mais vulneráveis, todas as ações deveriam estar focadas nestes grupos de risco.

Alguém há de ressignificar a famosa sentença de Louis Pasteur que afirmou “Claude Bernard estava certo, o gérmen não é nada, o terreno é tudo”. O contexto da afirmação precisa ser relativizado  pois a exclamação de Pasteur foi feita antes dos extraordinários avanços da microbiologia, mas isso não invalida sua reflexão. Longe disto.

Se a disseminação de um “novo” vírus é mesmo inexorável como parece ser o que nos resta é pesquisar como fortalecer e reduzir a vulnerabilidade das populações sem negligenciar a susceptibilidade individual, o terreno, ao qual Cluade Bernard e outros médicos e pesquisadores de orientação vitalista se referiram.

Afinal, como afirmou Roberto Machado “nem sempre uma anterioridade cronológica é uma inferioridade lógica”.  A epidemiologia clínica pode ser resumida em discernir corretamente entre o que expõe o sujeito (ao risco) e o que o protege. Neste sentido, como frisa o Prof Saldiva é compreensível que as pessoas cedam espaço à ansiedade e ao desespero fazendo estoques de alimentos, máscaras e álcool-gel. Mas temos que insistir e denunciar o caráter injustificável desta precipitação.

Afora todos os problemas econômicos e políticos, imaginem o impacto sobre o psiquismo de crianças e adultos desta consentida neurose que tem tangenciado uma epidemia patofóbica? E preciso considerar e verificar com estudos psicométricos a dimensão atual e futura que o alarmismo produz na vida das pessoas. Além de supervalorizar a abordagem preventivista em relação às epidemias. Epidemias no plural, pois não há só uma, e a escolha das prioridades, é uma arte de difícil domínio, que está para bem além do campo meramente polóitico-administrativo.

Apesar dos avanços tecnológicos, e já que a medicina não é uma ciência exata, aproximando-se muito mais de uma ciiência operativa, os  Fundamentos da Medicina permanecem os mesmos. As políticas públicas e privadas de saúde devem pautar suas ações em combater os agentes agressores do meio sem descuidar simultaneamente de aumentar a resistência do hospedeiro.

É nesta equação que repousa a racionalidade e nossa saúde mental.

.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: