Algoritmos da manipulação

Paulo Rosenbaum

08 de novembro de 2019 | 20h11

“Hell is empty, devils are here”.

Shakespeare.

A Democracia precisa de mecanismos que impeçam aqueles que fazem de suas liberdades o usufruto para engessa-la. Sem estas salvaguardas continuaremos a assistir espetáculos do mal feito. Com pitadas de argumentos toscos, seguida da liberação de gente de alta periculosidade à democracia e ao erário.

Notem como a neutralidade é comprometedora. Notem também que a divisão no País não tem nada de fortuita, já que coincidentemente esquerda e direita não estão exatamente disputando o poder. Apenas adotaram a estratégia mais eficiente para manipular o medo.

A obsessão é descobrir algoritmos para melhor operar e teleguiar a cabeça dos cidadãos. E é espantoso quão bem sucedidos são os grupos políticos que detém habilidade inata em matéria de maniqueísmo instrumental. E sem nenhuma alusão metafórica, a eficácia é monstruosa. Pois tudo indica que a pregação ideológica obsessiva visa uma única e a mesma coisa: manter a constância da insegurança e conservar o potencial sufragista nos respectivos currais eleitorais.

Traduzindo, o significado dessa orientação é que nenhum sujeito pode ser considerado sujeito na República. O que é muito mais danoso do que a cassação da cidadania. A identidade é devedora dos agrupados numa legião, associados à uma manada, filiação partidária, pertencimento à militância, sectarismo corporativo ou grupos de interesse. É nestes nichos que o triunfo sobre as massas pode sobreviver: onde todo discurso político é genérico e impessoal mas, ao mesmo tempo, centrado no culto à personalidade. Na apologia de líderes que já não lideram. Ex-líderes que, ao perderem a autoridade, recorrem ao autoritarismo e ao cinismo em suas várias modalidades: explicito, messiânico ou subliminar.

Nas democracias representativas que cederam ao populismo o Estado tornou-se o padrasto raivoso que cobra obediência cega. E para tanto agora formata e edita leis sob medida. A função é subjugar, exigir aceitação acrítica e modelar a intolerância. Ao mesmo tempo, arrogam-se o direito de anular, mutilar e adulterar as regras para melhor servir-se dela e aos amigos vassalos.

Não é pouco aquilo que testemunhamos neste julgamento que foi para bem além da polêmica. Resvalou na marca do ignominioso já que as normas jurídicas foram editadas sob medida, na forma de um arrivismo irresponsável.

Resta saber se aquele plenário defendeu ou perverteu o que está escrito no texto constitucional?

Quem não exerce o direito ou a magistratura, eles dizem, precisa reduzir-se à  insignificância. Curvar-se ao magister dixit e aceitar que é um mero seguidor do vilipendiado senso comum. A opinião pública merece apenas ser submetida ao crivo e à argumentação de experts. Estes, por sua vez, costumam nos berrar o que diz a leitura hermenêutica da constituição federal, especialmente naquele trecho que fala acerca do presunção de inocência do culpado até a leniente manivela rodar todo transito em julgado. Espera, que todo adulto sabe exatamente o que significa, à exceção talvez dos representantes dos poderes legislativo e executivo, que, a despeito da perplexidade da opinião pública, escolheram o silêncio de ocasião.

O que os experts e demais especialistas contratados não dizem, para explicar o que foi ditado, é sobre o sentido da justiça. Vale dizer, o sentido que ela deve adotar para proteger as vítimas. Mais do que os trilhões desviados dos cofres da República, e quando a vítima é a própria democracia? E quando a vítima é a liberdade da maioria?

Se a função da privação da liberdade nos delinquentes é produzir o arrependimento, todo sistema de punição dos apenados precisa ser revisto. Não se notou, por exemplo, um pingo de respeito à justiça ou amostra de que o superego do ex-presidente foi vivificado durante sua estadia no bem equipado quarto de Curitiba. Há apenas alguns minutos exalou explosões de ódio e juras de vingança prometendo  — sempre com sua peculiar astúcia — arregaçar o País. Não carece Senhor, já está.

O diagnóstico não poderia ser mais equivocado: o Estado Democrático de Direito no Brasil não está ameaçado por fantasmas do passado, está sim assombrado por castas de entidades perversas espalhadas em todas as direções.

O não alienado está obrigado a respirar o clima conspiratório que varre o País. Não assino mais nada. Não sei se resta energia para manifestações. Não lerei mais manchetes. Doravante também evitarei notícias e comentários. É chegada a hora de refluir à vida privada. Com máximo fervor e determinação. Trata-se de um favor pessoal ao si mesmo.  Escolher a  alienação é só uma das maneiras para tentar reduzir a tensão a zero.

Como fantasia é eficiente. Recomendo.

 

 

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