Angelina e a prevenção na sociedade patofóbica

Angelina e a prevenção na sociedade patofóbica

Paulo Rosenbaum

16 Maio 2013 | 16h24

“A revelação feita na terça-feira, 14, pela atriz americana Angelina Jolie de que fez uma dupla mastectomia para reduzir as chances de ter câncer de mama desencadeou um debate no Brasil sobre a realização de testes genéticos para a detecção de mutações que podem aumentar o risco da doença. Com custo avaliado em R$ 6 mil, o exame ainda não é ofertado pela rede pública de saúde.”

Reavaliando preconceitos e aversões, celebridades têm mesmo seu valor. A atriz Angelina Jolie expandiu drasticamente sua fama com a notícia da mastectomia total bilateral à qual se submeteu depois de detectar, através de exames genéticos, alto risco de desenvolver neoplasia maligna na mama.

A decisão provocou corrida aos exames genéticos e intermináveis polêmicas, mas, pelo que se lê e ouve, estamos distantes de qualquer consenso, sequer de um debate racional. Como sempre, alvoroços opinativos se transformam em posturas sectárias e apriorísticas: “eu também faria, tem toda a razão” ou “que absurdo, ela deve ter tido razões ocultas para tomar essa decisão”. Assim é que não se vai muito longe. A verdade é que exames de mapeamento heredo-genético ainda estão em fase de pesquisas. Neste estado embrionário, bem poucas cidadãs podem se esclarecer ouvindo e lendo as discussões travadas na mídia.

Vamos voltar um pouco para tentar reconstituir as razões, o contexto e os parâmetros científicos que costumam nortear decisões terapêuticas.

Toda a ideia da epidemiologia clínica sempre foi tentar esclarecer e distinguir os fatores que expõem (com potencial para impactar negativamente a saúde) daqueles que protegem o sujeito (deixar o organismo menos vulnerável). Como saber? Tenta-se estabelece-se uma linha de risco. O risco é uma fronteira subjetiva, ainda que possa ser transformado em índice matemático sob dados estatísticos. A saber, existem procedimentos clínicos, nutritivos, hábitos de vida, e ambientais que protegem a pessoa, assim como aqueles que a tornam mais vulnerável.

Então de onde emerge a subjetividade e toda a assim chamada “arte” em medicina?

A medicina não é ciência stricto sensu, no máxima ciência operativa como alguns epistemólogos ousaram classificar. A arte mencionada se deriva da necessidade de ponderar cada caso em seu devido contexto de individualidade e peculiaridade. Isso torna as regras clínicas mais flexíveis. Alguns reclamam deste caráter relativizador que a medicina adota. Ainda bem que ele existe! Na verdade, trata-se de um importante esteio de segurança para que a pessoa enferma não seja reduzida a mero protocolo.

Em outras palavras, todas as decisões terapêuticas: do parto via cesariana ao transplante cardíaco, dependem pois de criteriosa avaliação do médico, dos cuidadores, da família, da história pregressa, das condições e contextos da pessoa enferma.

Se Angeline têm mais chances de desenvolver a doença neoplasia mamária, e há um exame que detecta esta predisposição e ponderadas todas as variáveis, ela junto com o marido, médicos, agentes da saúde e família, tomou a decisão, esta deve ter sido acertada. Isso não significa que outra pessoa, nas mesmíssimas circunstâncias e com o idêntico exame em mãos, deva ou possa reproduzir o que a atriz acaba de fazer

Por que não?

Exatamente porque a análise de risco envolve aspectos que estão para além da medicina e, às vezes, o que vale para um pode não valer para outro. Quanto a mulher pode suportar a idéia da mutilação? Quais os impactos psíquicos? Com que tipo de companheiro/família ela poderá contar na fase que se chama convalescença? Ela sabe que resta uma chance de 10% de que mesmo tendo se submetido ao procedimento pode desenvolver o câncer? Sabe que podem haver complicações cirúrgicas, como aderências, má cicatrização e infecções? Qual será a influencia da cirurgia no seu futuro, nos projetos que desenvolve, nas atividades profissionais? E, por último, decerto o mais importante, como lidará com a informação de que haviam chances de jamais desenvolver o tumor maligno?

Para compreender isso melhor será importante recuperar os esquecidos e quase abandonados conceitos de predisposição e susceptibilidade. Não seria má idéia que o público tivesse acesso aos textos do pai da medicina para entender isso melhor. Sim senhores, uma medicina “antiga” como a hipocrática ainda pode nos indicar caminhos e evitar trilhar nos desastres dos excessos de diagnósticos.

Polêmica mas cabível, é a tese desenvolvida pelo médico americano Gilbert Welch “Overdiagnosed”, livro que tráscríticas razoavelmente fundamentadas aos incontáveis abusos de técnicas da propedêutica armada (exames laboratoriais). Welch, não descarta o valor do diagnóstico ou propõe modelos alternativos para a saúde, mas enfatiza o questionamento à indústria das doenças que o excesso de tecnologia costuma construir. 1

Em uma sociedade com características patofóbicas (pathos – paixão ou doença, phobos – medo) e alarmável por tudo, agravado pela velocidade on-line de informações impossíveis de seres processadas, nossa tendência é consumir procedimentos e seguir acriticamente o que se noticia como in e up-to-date. Há uma moda em saúde também.

Para desenvolver uma moléstia (complexo de alterações funcionais e morfológicas, de caráterevolutivo, que se manifestam no indivíduo submetido à ação de causas estranhas, contra as quais ele reage) é preciso “poder” desenvolve-la. Em termos práticos isso significa que só se existe um terreno genético há chances de desenvolvimento da patologia. Chances não significam certeza. São dados condicionais, não mandatórios. Se soubéssemos de todas as nossas chances de adoecer, viveríamos melhor? Para que alguém adoeça, devem se mesclar condições suficientes, necessárias, sobretudo fatores desencadeantes. Em geral são multifatoriais. Exemplo: uma crise de bronquite alérgica pode afetar alguns sob três condições simultâneas: verão, muita umidade e abuso no consumo de chocolate. Em outros (considerando que o sujeito tenha a mesma predisposição genética e a mesmíssima patologia) só desenvolverá seu potencial no outono, ar seco e a noite. Ainda há aqueles que só precisam da decepção financeira para desencadear broncoespasmos. É esta ampla, quase imponderável variabilidade que torna a medicina um campo curiosamente inexato.

Voltando ao caso Jolie, é necessário prudência, responsabilidade e cuidado. O risco é que, sem todos os dados, o cenário se torne corredor de direção única, como aliás têm sido a epidemia de cirurgias plásticas e bariátricas. Isso é particularmente importante neste caso, e, por isso, trago o tema à tona. Questão de saúde pública. A tendência dos colonizados é agir por cópia e a cópia costuma ser um equivoco. O que serve para Jolie pode não servir para as outras mulheres e vice versa.

Qualquer decisão que envolva este grau de radicalidade e intervenção, merece esmiuçamento e seria aconselhável estar clinicamente amparada, de preferencia, por duas opiniões de equipes médicas e transdisciplinares.

Uma vez formulada a decisão, aposte que essa foi a melhor dentre todas as possibilidades sem esquecer que nada é inexorável.

[1] http://www.nytimes.com/2011/01/25/health/25zuger_excerpt.html?pagewanted=all