Anomia

Anomia

Paulo Rosenbaum

18 de junho de 2013 | 00h56

Sete mil marcham em Brasília e ocupam a cúpula do Congresso

Policiamento não conseguiu deter avanço dos manifestantes; protesto teve motivos diversos, desde o aumento de tarifa a temas da política nacional

Onde andam todos eles? Sabe aqueles carismáticos? Sumiram? É compreensível, não querem se desgastar por nada. Se o movimento vinga eles podem sacar uns votos, se não der certo eles arrumam a gravata e bola pra frente. Não foi sempre assim por aqui? Quer dizer, só para recapitular, há um povo sem liderança? Ou há lideranças sem povo? Normalmente não, mas a esta altura tanto faz. Todo mundo sabe que estava para acontecer. Ninguém tinha coragem de acender a lamparina para enxergar que no porão tinha gente. Sim, sim, gente. Mas entupir as pessoas em vagões e encher as plataformas e a cegueira, agora se vê, era para não ter que apertar o cinto. Não tem médico? Importa de Cuba. Não tem infra? Improvisa com esparadrapo. Não tem caixa pro essencial? Truque fiscal. Não tem segurança pública? Prende uns pés de chinelo. Não idiota, era de mentirinha! Não percebeu não? Era para meter medo nessa burguesia reacionária. Que nojo. E aí vieram os incríveis estádios, a vila olímpica (já tinha a que sobrou do Pan) grandes discursos, base alugada, derrama e a mídia paga. Se não funciona vamos controlar os jornalistas. Os mais indóceis despede. Os testudos, a gente põe no plano B. Pronto, o grande confeiteiro, com a ajuda do economista que era a medula espinhal da Arena, criou mais este grande bolo: estava constituída a quinta economia do mundo. De décima, mas era a quinta do mundo. Mas ainda não estava na hora de dividir. Renda de verdade não presta. O que funciona na base da gratidão é uma bela de uma bolsa cala-boca. E vamos adiar a infra para tocar mais fermento na coisa. Isso, até que estejamos maduros para dividir. Houve um problema quando o chefe ditava. A estenógrafa escreveu “duro” no lugar de maduro. Você não percebeu seu estúpido? É claro que foi por isso que demorou tanto. Quando vamos distribuir as fatias? Não foi culpa nossa, todos vocês estão de prova. Viraram migalhas, mas vocês sabem. Eles não pesam bem as coisas. (ele piscou para todos da equipe) Não dá. Sabe o trabalho que exige rachar em partes justas e pelo mérito? Alguém confessou recentemente: acho que foi o presidente do FED: a meritocracia morreu. Então que alguém pague logo a porcaria desta conta antes que cortem a luz. Recursos? Peguem o primeiro da fila e mete taxa. Sem dó. Arranquem da burguesia, da classe média, da classe CD. Façam o que for preciso. Como disse Carvalho “o bicho vai pegar”. Não deixem cédula sobre cédula. Como pudemos esquecer? Foi por pouco. Tínhamos que lembrar de premiar os companheiros. Esses correligionários de luta, do ombro a ombro, que deram tanto pela nação. Então vieram todos eles e usaram os bancos públicos e os fundos de pensão para financiar a justiça social. E daí que era justiça social endógena? A folha de pagamento não pode parar. Aqui tem para todos. Tá tudo anotado. Cada um recebeu o seu. Direitinho. E ainda tinha no holerite, a fominha da esquerda selvagem, a direita fisiológica, os amorfos, os paga-pau, os penetras. Peraí! Não esquecemos de nada? Há sim, este povaréu todo para dar satisfações. Manda o porta-voz atender e dá uma desculpa qualquer. Diz que não tem ninguém em casa. Se vira! Ainda estão buzinando na campainha? Então deixa, deixa que ele resolve. Sempre resolveu.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.