Antissionismo é Antissemitismo? 1

Paulo Rosenbaum

15 de novembro de 2019 | 18h01

 

Em palestra recentemente realizada no Centro Judaico Bait o poeta, ensaista e escritor Nelson Ascher enfocou um tema frequentemente interditado ou superficialmente abordado: antissionismo é antissemitismo? O blog Conto de Notícia fez uma síntese de suas considerações e acrescentou reflexões que envolveram também o problema da confiabilidade das notícias e as fake news, a conturbação política na Europa, o papel da imigração maciça e o islamo-fascismo, quem não é esquerda é direita ou quem sabe apenas “não-esquerda”?

Ascher iniciou fazendo uso de uma afirmação absolutamente sintética para responder sua própria pergunta

“Por que o antissemitismo existe e perdura?”

“Porque sempre funcionou”

Funciona de que modo e qual é o significado pregresso e contemporâneo de sua eficácia?

Ao afirmar que o sionismo foi uma espécie de “nacionalismo de segundo grau”  e que  existem outros “sionismos” sendo gestados na Europa em função de uma falta de identificação entre a democracia social praticada pelo parlamento Europeu e os países por ele governado. Deduz-se que o “nacionalismo de segundo grau” pode ser compreendido como uma reatividade dos povos às tentativas de interferências em seus costumes para além da unidade territorial e financeira. Neste sentido, estará a Europa ameaçada logo adiante por vários movimentos similares ao Brexit?

Em 2018 tivemos um perturbador recorde de número de ataques antissemitas na Alemanha, França e mais recentemente nos Estados Unidos. No caso europeu não há como desvincular o atual status quo da crise dos refugiados que permitiu o ingresso de quase 2 milhões de pessoas (imigrantes de Países do norte da África – em sua imensa maioria, frise-se  não refugiados) que vem de culturas intolerantes violentamente antissemitas. O problema portanto está mais na política imigratória que parece não ter critérios claros do os imigrantes propriamente ditos.

O debate tem sido interditado pela sistemática evocação de termos proibidos por um eufemismo censor mais conhecido como “politicamente correto”. Qualquer menção ao fluxo imigratório selvagem tem sido rotulado como “islamofóbico”. Também é auto evidente porque não se dá o mesmo tratamento para a expressão “judeofobia”. A insistência de boa parte da mídia em condenar aprioristicamente Israel, nas manchetes e nas declarações, atesta isto. Nas recentes crises com a Faixa de Gaza governada  pela organização terrorista Hamas — e seus proxys iranianos — as testeiras mostram o disparate e o viés preconceituoso de parte significativo das mídias jornalísticas. “Israel ataca Gaza” é a chamada mais comum, isso depois de Israel ter recebido quase 500 foguetes contra populações civis em menos de 48 horas. Importante salientar, como já se enfatizou mais de uma vez, que tais organizações terroristas não tem nada a ver com o o governo oficial dos palestinos e seu presidente. São frentes ilegais, as quais, na verdade, oprimem e mantém como reféns a população de Gaza.

Segundo Ascher há uma particularidade no caso do antissemitismo europeu que frequentemente utiliza o justificacionismo do álibi antissionista. É  essencial analisar o papel — direto ou indireto — desempenhado por Angela Merkel e outros dirigentes daquele continente.

Ainda segundo sua análise alguns destes governos autointitulados de democracias sociais, prestam regularmente tributos ao judeus mortos na Shoah (Holocausto) e de fato condenam publicamente o antissemitismo, pregresso. Entretanto, enquanto proferem discursos fúnebres sob auto chibatadas negligenciam o dramático e explícito clima agressivo contra as comunidades judaicas. Enquanto outros Países parecem fazer o movimento inverso. No caso da Hungria — país que você acompanha a política com particular atenção — temos exemplo deste aparente paradoxo: ali temos um governo classificado como de extrema direita (sic), mas é, ao mesmo tempo, um dos lugares onde os judeus contemporâneos parecem estar mais seguros quando se compara com a situação em outros Países europeus. O paradoxo é apenas aparente: enquanto parte significativa dos partidos de esquerda escolhe aglutinar-se em torno de velhas teorias conspiratórias antijudaicas — antes argumento monopólio da extrema direita — há hoje um novo e incendiário componente para ser contabilizado : como definido por Umberto Eco, trata-se do islamo-fascismo.

Como se explica então que nações que inclusive fazem o mea culpa frequentes pela suas responsabilidades no genocídio praticado pelos nazistas com co-participação de vários outros países, mas permanecem inertes diante da epidemia de intolerância antijudaica que hoje varre a Europa, se não impunemente, contando com a omissa displicência dos governos.

Ascher recomenda então a seguinte inflexão: o que é o “Estado Democrático de Direito”. O ex presidente Mubarak por exemplo foi diretamente desestabilizado pela política externa de Obama e na sequencia a Irmandade Muçulmana venceu as eleições no Egito. Como se sabe a “Irmandade” é uma das mais antigas agremiações islâmicas radicais. Aliada estratégica do partido nazista é hoje uma entidade assumidamente jihadista. Venceu por larga margem derrotando todos os partidos moderados naquela que seria uma das primeiras eleições no País árabe em décadas.  Pouco tempo depois a própria população entendeu o erro e saiu às ruas — num evento que foi erroneamente classificado como “primavera árabes”– pedindo a deposição dos recém eleitos, o que efetivamente acabou acontecendo através de um golpe militar liderado pelo general Sissi.

Na época, vários analistas atribuíram o fenômeno da eleição de Morsi — morto recentemente de um ataque cardíaco — a um erro do timing do processo democrático: a IM fora a única organização a manter sua estrutura intacta durante as ditaduras subsequentes que perduraram e, portanto, a única apta a concorrer no pleito como uma opção quase exclusiva naquele sufrágio de caráter plebiscitário. Considerando o episódio o que é afinal o Estado Democrático de Direito?

Se só a compreensão do contexto histórico-político pode defini-lo, qual é a sua consistência?

Direita e esquerda tem seus vícios e classificações selvagens. Por sua vez quem não se encaixa nos postulados da esquerda está sujeito a ser tachado de direita ou de extrema direita. Não se admite apenas “não esquerda” ou “não direita”. Muitos membros do partido democrata norte americano e do partido trabalhista inglês — centralizados na figura de Corbyn — tem instrumentado o discurso da luta pelo direito dos palestinos sacrificando princípios históricos ao defender abertamente posturas antissionistas e antissemitas. Isto inclui perfilar-se na defesa do regime teocrático dos aitolás e sair em defesa de organizações jihadistas — oficialmente reconhecidos pelo Parlamento Europeu como entidades terroristas — como Hamas e Hezbollah. São denúncias que vem de dentro do próprio partido trabalhista inglês.

Qual seria o significado ideológico e tático deste giro político?

É inquietante saber que muitos jornalistas passaram a agir de forma militante. Selecionando notícias de acordo com padrões mais ideológicos do que reportando fatos. Parece óbvio que o viés hermenêutico tomou um vulto muito mais poderoso do que os fatos. Ainda que a neutralidade seja uma função idealizada o papel original do jornalismo não estaria mais próxima de estimular o leitor a tomar suas próprias decisões do que de doutrina-lo? Não em nossos dias, quando as notícias falsas que provém de fontes oficiais são muito mais comprometedoras — pois supostamente insuspeitas ou menos suspeitas — do que as propagandeadas nas redes sociais — sempre sujeitas a uma dupla checagem por parte dos usuários mais cuidadosos.

Depois do episódio das acusações do candidato derrotado à presidência da República Ciro Gomes que externalizou seu preconceito quando evocou “corruptos da comunidade judaica”, o caso brasileiro mais recente de declaração acusando os judeus coube à revista “Isto É”. O folhetim publicou lamentável artigo explicitamente antissemita — com o pretexto de acusar o secretário de comunicação do atual governo — usando como mote compara-lo ao chefe de propaganda, o infame Josef Goebbels, marquetólogo do fuhrer. O magazine também usou o termo acusatório fabulando e identificando o inimigo, mais uma vez, “a comunidade judaica”. O título do libelo dispensaria mais explicações “O Goebbels do Planalto”.

Neste sentido, fica evidente a tentativa de sabotar o direito de qualquer sujeito de uma determinada etnia trabalhar ou atuar politicamente para um governo que o articulista e a direção editorial do panfleto considerar inadequado. Na falta de argumentos consistentes a acusação sempre recairá sobre a condição étnica que estiver mais à mão. Soe acontecer com mais frequência contra os judeus.

É neste momento que estamos muito próximos da cassação da cidadania. E da suspensão da ideia do Estado laico por parte de quem mais deveria defende-lo. E assim foi possível mais uma vez evocar o mito, este sim claramente neonazista, de que haveria um “complô judaico”. Ora, há judeus de todas as correntes políticas e matizes e jamais a condição etnico-religiosa poderia ser usada como álibi para generalizar coisa alguma. A não ser é claro que o jornalista ou escritor já esteja na frágil condição intelectual de pós-análise. Isto é, o que importa em qualquer reportagem são suas convicções pessoais e o ponto de partida já é o ponto de chegada.  Generalizações infundadas como as que rotineiramente aparecem partem sempre de um viés ideológico, devocional, vale dizer, fanático.

Não estará ai uma das raízes do próprio descrédito hoje atribuído às mídias regulamentadas de forma geral? A fabricação de desinformação — cada vez mais identificada pela velocidade e expansão do acesso à diversidade de meios de informação — não é a própria genealogia das notícias falsas? Notícias que agora com o condão da web se espalham com assustadora desenvoltura? Isso ocorre enquanto é possível constatar paradoxalmente um considerável avanço de confiança no que é veiculado através das redes sociais?

Afinal o que são as “fake news”? E qual seu impacto no cenário político nacional e internacional? Especialmente no caso de Israel que sofre um considerável número de ataques com mídia financiada e blogs pagos para difundir, por exemplo, discursos de ódio e intolerância.

Neste sentido, pode-se afirmar que o moderno antissemitismo travestiu-se com um antissionismo de ocasião. Trata-se contudo de uma roupagem improvisada. Sob o manto desmontável que merece ser desmistificado pelo jornalismo sério há um respeito seletivo pela liberdade de expressão.

Pouco mais de 74 anos depois do fim da II Guerra Mundial e da morte de mais de 60 milhões de pessoas entre elas 6 milhões e 250 mil judeus (estes mortos depois do final da guerra quando tentaram voltar aos seus domicílios europeus) a realidade só reafirma a importância vital da existência do Estado de Israel para o povo judeu e sua segurança no atual momento histórico. E apesar das ameaças e do renascimento da virulenta onda de intolerância contra os hebreus, nunca houve uma época na história da humanidade na qual tão poucos judeus morreram em massacres. O antissionismo então finalmente desvela-se como só mais uma face velada de um dos arquétipos mais primitivos e recorrentes da humanidade.

Talvez a grande frustração dos pregadores do ódio é que, desta vez, o bode expiatório tem como se defender.

 

Tendências: