Antissionismo é antissemitismo 2 – O Bilhete da Memória

Paulo Rosenbaum

27 de novembro de 2020 | 10h10

Antissionismo é Antissemitismo 2 – Bilhete da Memória

“A tolerância torna-se um crime quando aplicada ao mal”

Thomas Mann (A Montanha Mágica)

A assembleia nacional francesa depois de uma discussão que durou mais de uma década passou uma resolução e decidiu que o antissionismo (o ódio à Israel)  é antissemitismo.

“A Assembleia Nacional… acredita que a definição operacional usada pela International Holocaust Remembrance Alliance permite a designação mais precisa do que é o anti-semitismo contemporâneo ”, lê-se parcialmente o texto da resolução:

“Considera-o um instrumento eficaz de combate ao antissemitismo em sua forma moderna e renovada, na medida em que engloba manifestações de ódio ao Estado de Israel justificadas apenas pela percepção deste como um coletivo judeu.” (Times of Israel, 03, 12, 2019)

E não é difícil compreender porque assim fizeram os franceses, e seria de se esperar que todos os Países civilizados os seguissem como um exemplo de respeito à civilização e de decência intelectual.

Menos de 75 anos do final da Segunda Guerra Mundial, o mundo testemunha uma crescente onda de xenofobia.  O antissemitismo foi o preconceito étnico que mais cresceu nos últimos anos. Record de ataques contra judeus foram registrados no ano de 2019. O número das agressões foi inclusive muito maior do até então considerado ápice da intolerância, pouco antes do início do grande conflito que terminou em 1945. Somente nos EUA foram reportados 2100 incidentes violentos.

Portanto volto a um assunto que já foi tema de um extenso artigo anterior publicado aqui neste mesmo Blog Conto de Notícia. Um dos candidatos a prefeito de uma das maiores cidades do mundo pertence a um partido, o Psol, cuja plataforma – e não apenas seus membros isoladamente — declara explicitamente, contra todas as evidencias disponíveis, que Israel é um Estado que pratica genocídio contra o povo palestino.

Para além do exagero retórico do partido do atual candidato do Psol a prefeitura de São Paulo citamos declaração contida em sua plataforma – “o governo de Bush foi quem mais ostensivamente o praticou, declarando apoio a Israel e a seu massacre, dizendo que o Hamas é terrorista” conforme artigo retirado do próprio site do partido do partido em 2018. A verdade, porém, é que há consenso da comunidade internacional de que após prolongadas investigações contando com experts civis e militares de várias nacionalidades de que não há nenhuma prova de que houve “massacre”e de que o Hamas é uma organização terrorista e como tal foi classificada pelos Estados Unidos, União Europeia e a maioria dos países civilizados.

O site do partido é repleto de exortação ao ódio e notícias falsas, como as publicadas no mesmo veiculo em janeiro de 2019, a verdade é que comparar o holocausto com supostas carnificinas cometidas pelas forças de defesa de Israel com os massacres promovidos pelo exército nazista, está para bem além de ser patética. O nacional socialismo alemão e seus sócios responsáveis pela política sistemática de extermínio dentro e fora dos campos de concentração assassinou 6 milhões de judeus.

Já o partido em questão adota palavras de ordem ameaçadoras, votos de ódio e hostilidade sem contexto ou equivalência moral, e uma provocação particularmente mentirosa:

Em outro trecho do “artigo”(sic) a verdade é mais uma vez torturada com slogans como classificar o regime israelense de “neonazista” (sic). Neste caso é a realidade que protesta já que ao contrário do que afirmam os militantes escribas do partido, a legitimidade e apoio ao Estado de Israel é crescente inclusive no mundo árabe e o exército de Israel está entre os mais éticos do mundo, conforme arquivos da própria ONU.

“Em Israel, tal como foi na Alemanha do terceiro Reich, se trata de um estado que somente pode sustentar-se sobre a base de um militarismo genocida e racista”. Eis mais uma anedota de um partido que nem tenta ocultar sua beligerância anti- Israel e, portanto, contra todos os judeus que encontraram lá paz e refúgio depois da Shoah. E acharam proteção e acolhimento não só naquele País, mas também em lugares como o Brasil, onde os povos estão acostumados a viver em harmonia e mútua aceitação. Convivência pacífica que parece  incomodar o núcleo duro da agremiação.

Estes são apenas alguns exemplos de desinformação irresponsável, com potencial para incitar crimes de ódio, sempre sob o álibi de apoio ao povo palestino e o argumento maniqueísta da generalização. Sequer se enrubescem quando apoiam o regime teocrático e homofóbico iraniano e embarcam na psicose anti norte americana que ainda assombra  parcela significativa da esquerda. Não é uma cegueira seletiva. Não é ingenuidade. Trata-se no máximo de uma modalidade perversa da síndrome de Hiroo Onoda, soldado do exército imperial japonês, que até 1974 viveu escondido nas selvas das Filipinas sem saber que a guerra havia acabado. No caso deste partido, fica mais do que evidente a manipulação e a desonestidade intelectual com finalidade de propaganda política.

Apesar do candidato ter se esquivado das indagações feitas para ele durante a campanha, cristãos, evangélicos, judeus e toda a opinião pública teriam muito interesse em ouvir da boca do candidato que aspira governar a cidade no qual habitam. O que afinal ele realmente pensa sobre tudo isso? E não foi por falta de perguntas ou oportunidade para oferecer suas respostas. Parece, entretanto, que o sujeito optou por um silêncio tácito quando se trata de manifestar seu viés anti-Israel. Vale dizer, só deverá se pronunciar — o que seu partido já faz aos quatro ventos — apenas quando as urnas eletrônicas estiverem lacradas.

A plataforma de acusações do Psol contra o Estado hebreu é muito mais extensa e inclui queimar a bandeira de Israel e dos EUA (Manifestação no Rio de Janeiro, 2012), ameaça de expulsão de membros do próprio partido que não seguissem a cartilha anti-Israel, acusar Shimon Peres de “genocida”, além da sequência de acusações infundadas como vimos acima. Tudo isso divulgado de forma incólume, sem que os checadores de fatos tenham verificado os fatos, como aliás acontece sempre que os fatos não desmentem a ideologia que os checadores defendem.

Recentemente, um pequeno grupo de pessoas que dizia representar a comunidade, judaica elaborou um vídeo declarando apoio ao candidato deste partido. O problema é que o fizeram de forma furtiva, dando a entender que falavam em nome de todos. Surgiram polêmicas e respostas circularam nas mídias sociais. Mas este é apenas um efeito colateral de algo muito maior: o poder desagregador da retórica do ódio camuflado de libelo político.

Felizmente, os judeus são, constitutivamente, um povo plural, no qual cabem várias correntes de pensamento, preferências e até mesmo múltiplas ideologias. Foi a memória acumulativa das perseguições, e a densidade quase genética que se revela não só no psiquismo, mas no próprio corpo, que tem orientado o sentido desta experiência de sobrevivência. Como a experiência é uma sensação individual as sensações — de perseverança e afirmação da identidade — acabam se manifestando de uma forma muito particular em cada espírito. E portanto, como Freud observou em relação aos judeus: uma resistência admirável associada à capacidade peculiar de sobreviver às intempéries.

Mas mesmo em meio a tanta diversidade, tem havido pelo menos um consenso agregador entre os adeptos da tradição mosaica: não há, nunca houve, tolerância com a intolerância.

Nem com os intolerantes.

Essa percepção não veio somente através da leitura, da cultura e nem mesmo pela educação parental, emergiu da vivência e amadureceu através desta experiência de seis milênios, já que um povo tão antigo tem a obrigação moral de se conservar como arquivo vivo. E assim, usar suas memórias como bilhetes auto endereçados ao futuro. Estes devem ser lidos em momentos mais agudos a fim de evitar tragédias e enfrentar com coragem as vicissitudes da história.

O psol, seu candidato e colaboradores merecem algum agradecimento, já que provaram à revelia, mas com todas as cores, a tese de que antissionismo — ou ódio a Israel — é, de fato, uma manifestação vicariante do ódio antissemita.

E ai, recorro ao bilhete da memória onde está escrito com tinta rutilante:  “não deixaremos acontecer, nunca mais”.

 

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