Arautos do preto no branco

Arautos do preto no branco

Paulo Rosenbaum

31 de agosto de 2013 | 22h52

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Arautos do preto no branco

O que está acontecendo com as pessoas? Por todo lado está mais fácil encaixar uma gritaria, reações desproporcionais, histeria coletiva. Podemos fingir que nada acontece e até achar que não estamos em crise, mas não é possível controlar as idiossincrasias: uma hiper reatividade instantânea se instalou e impera nas relações interpessoais. E, sem alguma harmonia, nem sonhar com estabilidade e paz social.

Tentamos de todo modo dissuadir a paranoia, mas há um método, e o discurso que o constrói.

Alguém está bem satisfeito pela divisão da sociedade e a marcha ruma à polarização.

Dia desses gente truculenta quebrou vidraças de prédios residenciais num bairro de classe média no Rio de Janeiro,  e os moradores desceram á rua para perguntar:

— É assim que vocês protestam? Tentando nos destruir mano?

E a resposta:

– Vai lá burguesinho, fica vendo tudo da tua janela rapá

O curioso é que provavelmente eram da mesma classe social, a hoje quase hegemônica classe média, moravam no mesmo bairro, e não seria absurdo se descobrissem  que os filhos compartilham a mesma escola ou creche. Quem foi capaz de dividir as pessoas assim? Se não há mesmo uma arquitetura magistral e sórdida por trás de tudo isso deve ser a seleção natural fazendo das suas: luta entre classes na mais nova modalidade: luta entre as mesmas classes! Quem mandou a realidade cabular as aulas de filosofia marxista?             

Como luta de classes hoje é um passo anacrônico em direção a um passado impossível novas criações vieram, passaram pela inspiração stalinista e estão chegando até nós com seus refrões intolerantes. Repetidos acriticamente. Berrados a céu aberto. Podem ser xenófobos, classistas, racistas, ou só estúpidos. Definitivamente a grosseria desembarcou aqui.  

Ela está no varejo mas a inspiração no atacado veio do poder. Ela sempre raivosa, comandados na defensiva. Bom humor? Nem pensar. Respondem agressivamente à qualquer crítica. Ai começam a pipocar os saudosistas da ditadura e pronto, reinventou-se o ridículo climinha entre direita e esquerda. Isso só poder ser uma adição. Gente que precisa de uma dose de maniqueísmo diário na veia. Pode vir de pessoas hostilizando médicos, médicos hostilizando outros médicos, e, no fim, a peleja fica clara: jogar a população contra os críticos. O conflito de interesses foi abolido, suspenso por uma MP subjetiva. A crítica e o debate oficialmente criminalizados. Qualquer coisa serve. Como a oposição, esvaziada, perdeu a voz, e os furos do legislativo são auto evidentes, é a sociedade, na perigosa e instável ausência de intermediação política, que fica obrigada a acolher mais este papel.

Vê-se como a vida fica fácil no reino dos arautos do preto no branco: discordou é lacaio consumista, concordou é arrivista governista. Elogio de jornalista é comprado, articulista criticou é aloprado. Multidão aceitou é cooptada, minoria rejeitou é tapada. O fervor à justiça é conservador, o transgressor, revolucionário. Grande mídia reacionária, imprensa chapa branca, libertária. Com a capacidade analítica assim avariada vamos sendo consumidos na fogueira das trivialidades até que tudo vire cinza.  Onde não podemos mais saber quem é quem. Ganhamos uma sociedade progressivamente desarmônica. Alguém errou feio o diagnóstico, não era bem que não era um país sério: é que nascemos e vivemos na contradição e assim tocamos a vida.  Isso até algum truão decidir nos dividir para governar.

 

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