As distorções crônicas diante de uma perda irreparável*

Paulo Rosenbaum

17 de maio de 2022 | 18h47

As distorções crônicas diante de uma perda irreparável*

*Artigo de André Lajst

*Artigo de André Lajst

As imagens da polícia israelense reprimindo palestinas que conduziam o caixão da jornalista Shereen Abu Akleh, em Jerusalém, rodou e chocou o mundo. São imagens fortes, impossíveis de serem justificadas. Críticas à conduta da polícia israelense vieram, como de costume, e desproporcionalmente, dos quatro cantos do mundo. Porém muitas dessas críticas bem como muitas notícias sobre o ocorrido vinham carregadas de estigmas e jargões, pouca contextualização e muitas omissões.

Um carro fúnebre deveria levar o corpo de Shereen Abu Akleh para uma igreja cristã em Jerusalém Oriental, conforme acordado previamente entre os organizadores do velório, a família da jornalista e as forças de segurança israelense. Um tumulto começou a tomar forma na saída do hospital de onde o corpo seria levado à igreja onde haveria uma última homenagem, antes de partir para o cemitério. Populares palestinos pegaram o caixão e tentaram sair pela porta da frente do hospital para fazer o cortejo a pé, com o caixão sendo erguido sob os ombros, em vez de usar o carro.

Em meio ao impasse, pedras, paus e objetos – como pode ser visto em diversos vídeos –, começaram a ser lançados contra a polícia de choque israelense, que estava nas proximidades, para garantir a ordem. Foi nesse momento que a violência policial começou e, novamente, de forma bruta, dispersaram as pessoas que voltaram para dentro do hospital, onde o caixão foi então colocado no carro funerário e levado conforme o planejado, para o cemitério.

A argumentação acima não retira a responsabilidade da polícia de Israel. Tampouco merece uma criminalização descontextualizada. Ela apenas demonstra o que muitas pessoas e parte da mídia omitem por motivações ideológicas. A morte da jornalista ainda não foi apurada a fundo. Por exemplo, não se sabe, apesar das acusações irresponsáveis da Al Jazeera – rede de TV estatal do Catar, país ditatorial que não mantém relações diplomáticas com Israel – quem atirou o projétil que matou Shereen. A Autoridade Palestina conduziu uma autópsia preliminar, a qual não chegou a nenhuma conclusão. O projétil está em posse do governo palestino, que não permite análise de Israel e se nega a colaborar com o país ou qualquer órgão estrangeiro para que se chegue a um veredito. Caso o projétil fosse enviado para Israel, poderia facilmente ser identificado se o mesmo saiu ou não de uma arma israelense.

Israel é uma democracia e suas instituições, apesar de serem imperfeitas, como qualquer democracia no mundo, tendem a fazer investigações internas e corrigir erros cometidos no passado. Muitas pessoas, instituições e meios de comunicação pelo mundo estão usando a morte de Shereen Abu Akleh e a violência em seu enterro com um único objetivo: prejudicar a imagem pública de Israel.

A guerra pela opinião pública é travada contra o Estado Judeu há algumas décadas e ganhou força com o surgimento das mídias sociais. Vídeos editados, manipulados, pouco contextualizados rodam o mundo onde milhões de pessoas simpatizam com histórias contadas de formas binárias e superficiais. Não julgo essas pessoas, mas sim aqueles que de forma intencional decidem omitir ou inventar dados para usar indevidamente um fato, a fim de prejudicar Israel.

O Estado de Israel possui amplas liberdades políticas e civis. De acordo com o Freedom House, instituição americana voltada a monitorar a democracia, liberdades civis e de imprensa ao redor do mundo, Israel possui nota 76/100 e é considerado um país livre.

Em comparação, a mesma instituição pontua a Cisjordânia com a nota 25/100 e a Faixa de Gaza 11/100 e em ambos os territórios o status é não livre.

É lícito perguntar como alguém pode acusar Israel de “tentar calar” uma jornalista palestina que possuía credencial e livre trânsito dentro de Israel, sendo que este país é o mais livre em liberdades civis e de imprensa do que qualquer outro país do Oriente Médio?

Temos visto uma onda nova de distúrbios violentos na região, atentados terroristas, volta da anarquia em cidades palestinas onde homens armados e extremistas cometem atentados contra civis israelenses enquanto rejeitam a autoridade do governo palestino.

Shereen Abu Akleh morreu no exercício da sua profissão. Sua morte é uma tragédia que se junta a incontáveis tragédias que o conflito palestino-israelense coleciona. Ela Jamais deveria ser usada para insuflar as chamas na região. Sua morte deve ser investigada, os culpados punidos e esse incidente deveria ser usado para aproximar palestinos e israelenses, de modo que os dois lados criem coragem para sentar e negociar uma paz justa e segura para ambos os povos, para que ninguém mais perca a vida nesta guerra sem vislumbre de um fim próximo.

* André Lajst é cientista político, doutorando em Ciências Políticas e Sociais e presidente executivo da StandWithUs Brasil.

 

 

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