Breve autópsia das biografias

Breve autópsia das biografias

Paulo Rosenbaum

17 Outubro 2013 | 09h37

“Não se pode reduzir a dignidade humana ao valor de indenização”

Todos acabam tendo um pouco de razão na polêmica das biografias autorizadas. Famílias que não querem ter as privacidades violadas, autores que demandam o direito à livre expressão e, por último, mas os mais diretamente interessados, os próprios biografados. Existem aproximações mais ou menos qualificadas e criteriosas para compor uma obra biográfica, mas assim como na obra autobiográfica, são as impressões, interpretações e o viés com que se analisa os fatos os responsáveis pela redação final. Isso significa que se há biografia com mais pesquisa, mais material documental e mais horas de entrevistas em profundidade, não há, nem nunca houve, uma biografia científica, que dê conta da vida, sequer de um fragmento da existência. Seja sujeito famoso ou anônimo, maldito ou idolatrado. Uma biografia nunca será perfeita, assim como não há registro de página impecável na historiografia ou na literatura. Calúnias, distorções lesivas e difamação devem ser evitadas pela própria ética da narrativa. Caberia a um bom biografo a decência de não explicitar aspectos que violam ou exponham desnecessariamente a intimidade do biografado. Se há preocupação do editor em vender mais usando detalhes picantes e sórdidos que lhe seja cobrado — para além das indenizações — o ônus de quem humilha ou constrange. Mas a ideia de proibir, censurar, mandar recolher ou queimar edições não é bom augúrio. Denota o renascimento do espírito censor num País atacado pela anomia. Não é novidade. É no clima da neurose coletiva que costuma crescer a intolerância para com a capacidade hermenêutica dos escritores.