Breve entrevista com o Tempo

Breve entrevista com o Tempo

Paulo Rosenbaum

27 de setembro de 2019 | 19h10

 

 

 

 

 

O tempo é medida de todas as coisas? Um acúmulo de instantâneos? Mais do que provável. E ainda que em ciência existam muito mais perguntas do que respostas, é quase consenso que ele comanda tudo. E até prova em contrário o principal responsável por nossa Odisséia no planeta. E quer você acredite num tempo criado, ou na geração espontânea do Universo, ele é responsável pela ordenação dos teus dias.

Imaginem o tempo como um oráculo. Se ele fosse um sujeito sobre o que poderíamos perguntar? A idade do Universo? Se há alguém mais idoso do que ele? Se está ou não acompanhado pelo espaço? Pode ou não ser dissociado da coisa extensa? Quem é ele de verdade? Conhece a si mesmo? Faz meditação, introspecção, tem passatempos, respeitará alguma hierarquia? O que diria das sequencias revolucionárias? Quanto tempo leva para amadurecer uma democracia? As respostas podem demorar. É previsível, alguém pode imaginar uma entidade mais atarefada?

Afinal de contas vocês estarão entrevistando quem testemunhou o inicio e, estará lá, diante da singularidade, o grande fim. E ainda que ele não seja o Eterno, nosso oráculo teve alguma experiência com a natureza humana. A diferença entre Infinito e Eterno, aquela que enlouquece os físicos teóricos: pode haver algo que não tenha tido início? Que esteve lá desde todo sempre? Alguém que existe sem predecessores? De qualquer modo o tempo pode nos surpreender com uma declaração impulsiva:

— Vocês não perdem por esperar.

E o que pensará o tempo sobre o futuro? Prudentemente, deve guardar sigilo — não confundir com segredo de justiça — entidade particularmente enigmática em regiões tropicais. Além disso, o spoiler costuma não só estragar o final, como encurtar a aprazível sensação de expectativa. Mas seria ele indiscreto a ponto de nos expor como ele mesmo se diverte? E apesar dos processos secretos que dizem estar sendo acumulados contra nós, o povo, aproveitemos enquanto as cortes ainda não proibiram a especulação filosófica.

O que perguntariamos caso ele aceitasse nos responder sobre os nossos dias. Sobre o Brasil, foi o que combinamos, não faremos perguntas políticas, já que nesta longitude, até a cronologia juridica é duvidosa.

Poderia nos contar o que os instrutores de Greta permitem que ela faça nas horas de folga? Quantas diárias os digníssimos guardiões da constituição gastam para xeretar seus nomes nas redes sociais? Quanto ocupam da vida a legião que desperdiça seus prazos julgando semelhantes? Como aproveitar as oportunidades generosamente concedidas pelo instante? Conheceremos um estado de paz não artificial? Enxergaremos um destino menos perturbador? A salvação é de caráter exclusivamente individual?

Evocando o velho Hipócrates voltaríamos ao seu primeiro aforismo: a vida é breve, a arte é longa, a ocasião fugidia, o juizo difícil. Porém, é a brevidade que pode dilatar os instantes e é a arte que permite ampliar a imaginação. Se a ocasião escapa, é sua celeridade que pode comover e nos tornar mais alertas para o significativo no mundo, e será o juízo que se esquiva das dificuldades, ele é aquele que nos redimensiona. Por isso mesmo o justo está acima de qualquer santidade. É isso que conta nas estações que passam e retornam para nos agregar através de elos geracionais e cósmicos. E, apreciemos ou não, é a consciência de uma efemeridade que paradoxalmente perdura, aquela que nos vincula numa única metafora: o tempo, portanto, é o único bem duradouro.

O tempo é a seiva da interação, centauro do Universo, unidade irretorquível, a única certeza do infindo. que se despede de um ano com a convicção de que o vindouro será um presente.

Bom ano e Shana tová 5780

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