Canal de Beagles

Canal de Beagles

Paulo Rosenbaum

27 Outubro 2013 | 13h59

 

Direitos empatados

Tudo começou com um erro de tradução. E ele pode ter trazido parte importante da má fama para os animais. Não falo da serpente que ofereceu os figos para Eva. É que a tradução do grego para “animais irracionais” trouxe a conotação de que todos os animais não políticos seriam não inteligentes, ou, em outra versão, não dotados de espírito. Para que o pragmatismo considerasse todos eles seres inferiores não foi preciso muito. Aristóteles escreveu que somos animais políticos (zoon politikon) porque só realizaríamos nossa natureza em plenitude enquanto estivermos em contato permanente com a polis, a cidade. Animais políticos somos na suposição de que agiríamos com zelo com nosso habitat  a sob a consciência da moral que o filósofo classificou de moral magna, ou grande moral.

E quanto aos outros animais? Não se sabe se Aristóteles quis dizer que não raciocinam, ou seriam menos dotados de inteligência. Serão irracionais, ilógicos, estúpidos? Ou apenas animais “não políticos”? Qualquer pessoa que tenha um em casa sabe que muito da estimadevotada aos bichos está na cumplicidade. E claro, numa espécie de afetividade incondicional. Via de regra, animais não nos arguem, sua malícia é tomada como graça e suas malandragens interpretada como esperteza. São portanto apreciados e, ainda por cima, obedecem sempre, ou quase isso. O valor deles está para bem além da frescura burguesa de se possuir um bicho de estimação. São polivalentes como condutores de cegos, inspiradores de heroísmo, resgatadores de gente perdida, soterrados em desastres ou apenas companhia para solitários. Serviram inclusive à causas jurídicas importantes como aquela sacada genial na qual Sobral Pinto conseguiu um tratamento digno para o recém preso Luis Carlos Prestes, invocando o artigo 14 do código de defesa dos animais.

Ainda que sejam proibidos em alguns países (como no Irã) e sofram bullying aqui e ali, pets e companhia são hoje seres cada vez mais apreciados como seres relacionais. A cidadania animal, causa do final da pós modernidade, trouxe questões que ainda não conhecem respostas. Devemos aceitar submete-los aos testes científicos? Com quais limites? E quanto à criação e abate para consumo? Independentemente das aporias, vale refletir sobre o que está acontecendo bem sob os nossos focinhos. O que está se passando com as pessoas? Faz muito que passamos um limite perigoso. Sabemos disso pelo crescimento obscurantismo anticientífico + militância violenta. Os devotos da libertação animal agridem, ameaçam e arriscam matar para advogar pelos nossos parceiros de evolução. Deste ponto em diante passamos a não ter mais causa, mas tremenda encrenca ética. Nunca foi um bom negócio coibir atrocidades com irracionalidades. Desaguamos no fundamentalismo. Ao perder parâmetros e autocrítica, logo estaremos enfrentando equipes que pulverizam mosquitos e apedrejando os homens da desratização.

Culpa da evolução que temos nos considerado senhores de todos as outras espécies. Em ciência, nos auto denominamos anima nobili (animais nobres). Fomos nós, inclusive, que atribuímos como oposição que os animais são irracionais. Sinceramente, diante de tantos paradoxos e barbaridades de humanos contra humanos é realmente tentador reconsiderar isso. Mas não precisamos enfrentar as teorias de Darwin para saber que, justa ou injustamente, nós ainda estamos no comando da cadeia evolutiva. E uma vez que isso ainda é auto evidente, cabe considerar que se as experiências in anima vili (animais vulgares, isto é, não humanos) podem ser menos agressivas e no futuro, até dispensáveis. Mas hoje testes empíricos usando animais ainda podem ser a diferença entre vida e morte para outros seres humanos.

Há cinco séculos seguimos a risca a cartilha de Francis Bacon que preconizava “torturem a natureza” para extrair dela o sumo do progresso. Estamos um tanto arrependidos com todo o caldo coletado. Mas se vamos mesmo mudar, procedamos com classe. Não é só o estatuto jurídico-legal dos animais não humanos que está em jogo, mas também a escolha das prioridades.

Numa democracia todos os temas são relevantes ao mesmo tempo, mas e quanto às prioridades? Assuntos que merecem preceder outros? Que tal consumismo e produção de lixo ou agressão ao bioma?  Decerto que uma causa não invalida a outra, mas é sempre bom pensa-las em escalas e de preferência, contrastando-as. As mazelas mundiais tais como um bilhão de famélicos, ,condições dos presos, dos viciados em drogas, dos que não tem abrigo não deveriam preceder a arrumação da casa?

Podemos responder não!  Mas então teremos que assumir: nos amamos menos.