Catatonia

Catatonia

Paulo Rosenbaum

10 de julho de 2014 | 11h55

 

Convenhamos, o time não era só fraco. Mostrava inconsistência, falhas e insegurança. Não se trata se enxergar cada um dos jogadores – neste torneio o segundo conjunto mais caro do mundo. Falamos de time. Mas há uma palavra essencial, que pode ajudar a entender o transe no Mineirão. Está no relato de uma testemunha ocular da antológica final no Maracanã em 1950: este narrador chamou de “catatônico” (catatonia – do grego katátonos – forma de alienação com tensão permanente de certos músculos) o estado do time, depois que Alcides Ghiggia desempatou a partida.

No caso da atual seleção, o colapso emocional, a derrocada psíquica, de qualquer forma a catatonia, começou muito antes da joelhada. A maioria dos analistas mostrava cautela, mas foi patente o usufruto político que a administração federal e o Partido, sem trair seu estilo auto-referente, vinham fazendo com tudo que se referia à Copa do Mundo.

Descontrole das contas públicas, inflação, aparelhamento, queda do PIB, controle da mídia, a retração dos investimentos e o desejo por supremacia estiveram na ordem do dia da opinião pública, até que, para alívio do Planalto, vieram as partidas. Um stand by geral, tudo suprimido pelo entusiasmo da maioria da população. Muito antes da estranha partida contra a Alemanha, o País já havia sido subjugado pelos cartolas da FIFA. A entidade sem fins lucrativos mudou leis, fez exigências, impôs padrão, regras e preços. Insinuaram até que tirariam o time de campo. Reação? Nem um pio. A Associação foi amplamente atendida, em tudo, ou em quase tudo. Por que um governo, com reputação de presunçoso, se curvaria com tanta presteza? Medo de perder prestigio? Antecipação do potencial cacife político se tivesse dado certo? Obediência tácita? Subserviência estratégica? Sempre houve uma ligação, mesmo que não houvesse uma linearidade óbvia com as pesquisas eleitorais. Estava funcionando.

Como anotou Dora Kramer sem sua coluna, quase 90 dias separam o fim da Copa das eleições, e o povo não é bobo. Mas eis que surge o imponderável. As tais fatalidades, que é como por aqui nos referimos aos acidentes evitáveis. Ai chegou a vez dos locutores, que, assumindo a missão do patriotismo pecuniário, puxaram o coro de ofensas. Juntaram-se ao ex-presidente para promover agressões indiscriminadas: pagantes nos estádios, quem vaiava, críticos do time, descrentes da capacidade técnica, e aí foi um passo para reuni-los todos: golpistas e desgostosos com o regime. O ufanismo atingiu o apogeu com jingles insuportáveis criando uma parodia com o aforismo da ditadura “torça ou deixe-o”. Até que colou. Durou pouco. Eis que acontece a tragédia do desabamento do viaduto. O desastre catalisou a ruína, que veio em cascata. A partir dai era como se a maquiagem estivesse se denunciando: melhor parar de operar sob escoras. Toda improvisação é fugaz e enganosa. Foi como se o jogo oculto tentasse se auto elucidar. Por qual acaso os esportes seriam os únicos poupados em meio a um clima tão desfavorável? Foi ali, naquele exato instante, que essa seleção perdeu todas as chances. Com o simbolismo em frangalhos e com a tática de um técnico de competência ciclotímica, fomos humilhados. Menos pela Alemanha, do que por golpes da manipulação política.

Há mais mistérios nessa vida do que supõe o senso comum, mesmo assim alguns podem ser esclarecidos: o futebol foi a mais recente vítima instrumental desse governo.