Censura sem fim

Censura sem fim

Paulo Rosenbaum

23 Maio 2013 | 00h42

“Os desembargadores da 5ª Turma Cível do Tribunal de Justiça (TJ) do Distrito Federal confirmaram nesta quarta-feira decisão que, desde julho de 2009, impede o jornal O Estado de S. Paulo de publicar notícias sobre a Operação Boi Barrica.”

“Entidades representativas da imprensa criticaram a decisão tomada nesta quarta-feira pelo Tribunal de Justiça do Distrito Federal, que manteve a censura ao Estado. A Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP) considerou o fato “alarmante’.”

Para Ruy Mesquita


– O jornal está censurado?
– O termo é um pouco forte. Está sob monitoramento conteudístico.
– Ah! O que vêm a ser isso?
– Verificaremos todos os dias se o Sr. imprime o nome da pessoa que não deve ser mencionada.
– Só isso?
— Nem fazer referências alusivas, veladas, simbólicas, metafóricas ou alegóricas a eles. Leremos de cabo a rabo, buscando menções indiretas que possam identifica-los .E se o jornal desrespeitar isso
– Censura!
– Depende como o Sr. quer chamar. Censura era na ditadura. Chame de outro nome.
– Verrinário, exprobrador, inconcepto, todos eles juntos se quiser.
– Vocês colocavam a receita de bolo e os Cantos dos Lusíadas.Todo mundo sabia que a tesoura passou por ali.Engenhoso, mas hoje nem isso não passaria. Eu ainda era criança e meu pai me dizia o que era.
– E o Sr. não aprendeu nada com aquilo?
– Não é nada pessoal, sou só um funcionário. Faço o que é minha função.
– Censor! Você é um censor!
– O Sr. persiste nas palavras duras. Para que isso? É só uma proibição zinha.
– Uma ova, isso é censura e quem manda nessa porra sou eu!
– Gozamos de liberdade ampla geral e irrestrita.
– Só se for na tua casa.
– Calma Dr., eu só vim trazer o ofício.
– E lacrar a redação se ousarmos fazer menção aqueles dois. Tenho experiência e faro filho, começa assim, mas isso vai longe.
– Pois é o que a lei determinou! Como disse não mando em nada, sou um cumpridor de ordens.
– A lei pode ser injusta, meu pai, avô e eu já fomos presos e exilados porque desafiamos leis injustas.
– Já que o Sr. falou, sou pelo controle da imprensa. No próximo mandato eles já avisaram para todos nós que vão apertar.
–Faríamos e faremos tudo de novo e mais uma vez para lutar contra a repressão e os repressores.
– Entendi, o Sr. acha que publicar o que bem entende é o justo?
– Não sei, mas é a função da imprensa livre. Liberdade meu caro, algo que você nunca entenderia.
– O Sr. está se exaltando!
– Querido, você não ia querer me ver exaltado.
– Se publicar, vou ter que autuar.
– Pode lacrar, autuar e adjudicar o prédio todo que agora vou publicar mesmo. E tem mais. Amanhã vai sair este nossa conversa filosófica sobre liberdade e censura.
– Ihh! Já vi que o Sr. quer engrossar. Não posso ser identificado, o pessoal lá em Brasília vai chiar.
– Meu caro, você já foi identificado.
– Ah é, como?
– Nunca esqueço um rosto com formato de tesoura.