Conquistas sem paz

Conquistas sem paz

Paulo Rosenbaum

14 de janeiro de 2014 | 22h36

Sharon podia ter feito a paz

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Humorista antissemita

Salvo raras exceções, a vida e a morte de Sharon foi estampada na mídia mundial sob a velha discussão simplória e maniqueísta. O julgamento póstumo de uma liderança polêmica sempre tenta matematizar a índole do sujeito para apresentar a fatura estanque junto ao veredito. Seria ele gênio militar ou vilão? Estadista patriota ou traidor de colonos, quando devolveu a faixa de Gaza aos palestinos?

Cabe perguntar por que a tendência para apresenta-lo exclusivamente sob a legenda de carrasco? A etiqueta de vilão nunca é elementar, neste caso e em nenhum outro. Na verdade, condenar alguém à execração pública é uma forma de despistar o foco analítico e perder de vista o que está por trás do vício de informação.

O que explica o respeito que Ariel e os militares adquiriram dentro e fora de seu País, é que, diferentemente de maioria esmagadora das nações contemporâneas Israel ainda precisa  continuar a luta por seu direito de existir, e e é imperioso que isso seja incluído na balança dos julgamentos políticos.

Com ou sem ele, o barril de pólvora continua perigosamente ativo. Com Hamas, Hezbollah, salafistas, jihadistas, além dos braços varejistas do Irã na região, ninguém são pode prever uma bonança prolongada. O princípio terrorista destas organizações – tratados com condescendência especialmente pela mídia européia  — não é especulativo: em suas constituições vigora a cláusula pétrea que vota pelo fim do estado judaico.

Não é difícil prever que as ondas de antissemitismo — que mais uma vez se espalham pelo velho continente –  guardem uma relação direta com a demonização do Estado de Israel.  Uma vez que se tornou impossível continuar sendo racionalizada como preconceito de raça ou etnia a hostilidade contra judeus – como afirmou Jonathan Sacks em recente entrevista à revista Veja  – agora apresenta-se em sua novíssima face:  judeofóbicos tentam se relegitimar ao identificar seu ódio à terra de Israel. Parece incrível mas isso foi colocado no escopo do politicamente correto.

São contextos específicos que dificultam qualquer análise externa da situação real do país hebreu. A paz e humanistas  são sempre preferíveis às estratégias militares. Uma negociação radical com os realistas do Fatah pouparia vidas e sofrimento para todas as partes. Mas isso não autoriza ninguém a botar fé na autodestruição. Enaltecer o pacifismo ingênuo, numa região minada, pré radioativa e instável, funcionaria ao modo de imolação voluntária.
Na linha do que Amós Oz recentemente enunciou quando recebeu o prêmio Kafka de literatura, vamos, de uma vez por todas, abandonar a ingenuidade e assumir que o casamento acabou. E já que não deu certo que seja um Estado binacional “não mais um casamento, mas um divórcio justo”.

Impossível precisar se o misterioso coma prolongado do primeiro ministro teve a ver com os rumos atuais de Israel, mas é certo que alguma inquietude com o porvir o assaltava, especialmente a aquisição máxima de um Estadista para um povo, e que nunca esteve ao seu alcance: a conquista da paz! Não parece estar disponível uma saída à vista e a sobrevivência precede outras necessidades. Pelo menos não há vislumbre de trégua com adversários com demandas exóticas como aquelas que exigem que você morra antes de assinar acordos.

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