Contagem regressiva da Democracia

Contagem regressiva da Democracia

Paulo Rosenbaum

22 Setembro 2018 | 22h20

Os populistas nunca saem de moda, mas doravante será preciso escolher entre criminaliza-los ou preservar o sistema democrático.

Para esclarecer será preciso um trabalho de dissecção dos cadáveres que estão ainda na mesa. Ou como se diz em epidemiologia de uma autopsia psicológica do atual cardápio eleitoral. Como se fosse possível, recentemente criaram-se mais subdivisões nas subdivisões pré-existentes. Mulheres, judeus, negros, gays contra e a favor. A simples recusa em mencionar o nome dos candidatos (para não não fazer subir suas estatísticas digitais) mostra o caráter regressivo ao qual a sociedade parece esta sendo conduzida. O resultado tem sido um marketing reverso à revelia. Quanto mais se evita nomear mais exposição se obtém para o sujeito oculto.

Ora, nenhuma classe, etnia ou gênero tem homogeneidade minimamente razoável nas suas escolhas políticas. São todos movimentos forjados para  tomar a palavra e monopoliza-la. Procura naturalizar a  assunção de que se fala por muitos quando é apenas um grupo, mesmo que possa vir a ser numeroso.  Divulga-se então a ideia de que os interesses pessoais, partidários e ideológicos podem ser sequestrados para se tornarem porta vozes de uma suposta maioria.  Pois este é, em princípio, um desserviço à democracia. E a sabotagem não termina ai. Com a capacidade de difusão de robos emprestados e contratados com dinheiro público desviado, a capacidade de espalhar intolerância é maior do que a percepção da armadilha ao qual estamos sendo submetidos.

E por que o centro está sendo desativado, vale dizer, estraçalhado pelo voto? Sobre quem deve recair o ônus de ter levado a sociedade a ter que já escolher — em incrível antecipação desesperançosa — entre quem será mais fácil votar contra e derrotar em 2022?  Sim, pois este é a aritimética de uma exaustão que nos trouxe até este momento. Sim, é chegada a hora de apontar para os omissos e toda classe política que nos fez herdar a obscena polarização. O diagnóstico obvio têm apontado para os partidos políticos como um todo. Locupletaram-se nos últimos anos e são os grandes responsáveis, pois sua cooptação — por ideologia ou ambições de poder e censitárias — ocorreu a céu aberto, explicitamente, em plena luz do dia. A mordaça exerceu seu papel emudecedor não pela censura, não pela restrição da liberdade, mas pela via do excesso de denúncias. Se todos são culpados ninguém pode assumir a culpa. não se pode funalizar pessoa ou partido. Trata-se de alta astucia de um jogo ganha-ganha onde quem sempre leva a melhor são os conhecidos predadores, nunca a sociedade.

O culto à personalidade, alimentado pela perspectiva de redenção mítica, foi outra fonte da mazela que agora atinge a todos, indiscriminadamente. Exalçado por entidades religiosas e confirmado como salvador por movimentos sociais regados com dinheiro da casta sindical o culto à personalidade terminou o serviço de descaracterização dos programas partidários. Exterminou o projeto de uma agenda programática como fundamento da política. Desmontou o centro democrático. Além disso, tivemos a fabulosa ajuda de um regime proto-policial que ajudou a construir o perigoso consenso de que a única coisa necessária para ser um Estadista é não ter uma ficha corrida. Nada mais defectivo e falso. O candidado além de probo, deveria ter mostrado sua capacidade de administração, sua experiência em tangenciar temas dificeis, e capacidade intelectual e temperança para opinar, argumentar e contra-argumentar. Nada disso se viu nos candidatos que vieram substituir os presos e os impedidos de se reeleger para nos incomodar com seus repertório de sensos comuns.

O outro fator, talvez este o mais grave foi a negligente perturbadora afasia das instituições. Ninguém prefere explicitar, mas é notório que o sistema juridico começou a apresentar falhas gravissimas. Ao usurpar atribuições dos outros poderes sem que as outras instituições lhes fizesse frente, a hipertrofia da toga asfixiou a representatividade popular. Foi assim possivel para Roussef e outros constitucionalmente inelegíveis agora tornarem-se presentes nas urnas digitais à prova de balas. Condenados em três instâncias burlarem as normas e se apresentarem como ícones da moralidade pública. Votações reiteradas para julgar nomes e não princípios ou dilemas da constituição. Hermenêuticas seletivas aplicadas ao gosto dos clientes.

Nos últimos dias o quadro tornou-se pesadelo, grave atentado político, ameaça de indulto, agressão contra jornalistas, insultos destempero e convocação à violência. E, na mistura de temas, até um ex-ministro, abusando da manipulação e escancarando sua desonestidade intelectual abusou dos termos fascista e nazista. O disparate do membro da comissão da ONU, foi acusar um dos candidatos de “nazista e sionista” equiparando a doutrina do nacional socialismo alemão com o direito dos judeus a retornar a Israel. Do outro lado, a tentação atual é de revisionismo tosco ao propagar que os “nazis” eram bolcheviques travestidos com suásticas e de que a nunca existiu ditadura militar ou tortura (sic)

O estado abusivo com que o sistema político tem tratado os contribuintes e a reiterada malversação do interesse público fecha o quadro de um painel deprimente, onde o desvio de função do Estado é tão absoluto, que sabota a razão da existência de um  governo. Painel aberto para inspirações anárquicas e anomicas.  Por fim, mas não menos importante, a semi nulidade da oposição. Reféns do sucesso provisório que era uma fraude: a 5a economia do mundo, decerto, de 10a categoria. O resultado foi previsível, a sedução nos custou caro: vivemos 13 anos sem oposição. Nem a remoção cirurgica e benéfica da ex presidente não pode ser contabilizado a favor desta oposição, já que foi um ato que dependeu basicamente das 10 milhões de pessoas que estiveram nas ruas para amedrontar o establishment e o pressionarem a adiar o caos. Além disso, nas entrelinhas, o impeachment esteve muito perto de obter o aval lulopetista, já que até os fiéis súditos passaram a mostrar desaprovação à catastrófica escolha do poste feminino que Luis Ignácio pinçou de algum obscuro rincão burocrático. Tudo isso com o beneplácito de parte da mídia que endossou ou fez a aprovação velada ao projeto de poder. Não são os votos que estão consolidados, é o pathos político que já está bem sucedido e pago.

Temos agora que compreender a provável eleição de um populista das extremas com olhos analíticos. Não haverão surpresas. Já com enfoque preventivista e a preservação da saúde mental prescreveria:

Alienação para os próximos 4 anos.

Estoicismo para os próximos 10.