AO VIVO

Acompanhe notícias do coronavírus em tempo real

Contos minimalistas: dos totalitarismos benévolos

Paulo Rosenbaum

30 de junho de 2020 | 18h24

Conto minimalista 1 – Justiça

Primeiro, eles vieram e deram o veredito.

_________________________________________

Conto minimalista 2 – Atos

Uma multidão gritava “longa vida os atos antidemocráticos” e eis que, imediatamente, uma voz, grave, ecoou do alto:

–É “live”?

__________________________________________

Conto minimalista 3 – A história

Reuniram-se, e, quando estavam prontos para reescrever a história, a tinta acabou.

___________________________________________

Conto minimalista 4 – Nunca fomos dogmáticos

–Dogmático!

–De forma peremptória afirmo: não sou, quer cara mais aberto ao contraditório do que eu? A prova é que vou te dar uma lição da verdade última e definitiva: e essa você nunca mais vai esquecer.

___________________________________________

Conto minimalista 5 – Dos totalitarismos benévolos
Certa vez, alguém, evocando o marco civilizatório, conclamou grupos para destruir estátuas. Combinaram os mobs  e começaram a incendiar monumentos nas cidades.
Vendo a destruição, um desavisado passante perguntou:
–Podem me dizer como vocês elegem quais serão as peças do patrimônio público que vão marretar?
–Tudo que oprime será derrubado e triturado, e chispa, você está com pinta de fascista.
— Espera, estou te oprimindo?
–Muito pior. Está ousando duvidar da inquestionável dignidade do nosso movimento? Sabia que agora “atos antidemocráticos” como o seu dão cana direto? Nem passa mais pela segunda instância.
–Quer mais público? Tenho sugestões. O nome que vocês escolheram está errado. Que tal chamar o movimento de vocês de T.B., totalitarismo benévolo?
–Tá tirando?
— Não, totalitarismo do bem, não soa melhor? Estou só tentando encaixar. Tem que se questionar. Por exemplo, a qual ramo pacifista internacional vocês pertencem? Jihadismo laico? Marxistas da combustão? Weberianos da pesada? Furiosos da Kombi? Truculência dialética organizada? Invocados de Ghandi? Civilização ou morte?
–Ah, olhem só colegas, viram? Eis a prova, um legítimo defensor da ditadura.  Seu burguês, brutamontes, descortes, incivilizado, casca grossa, chambão, javardo, lanzudo, inurbano.
–Isso é preconceito irmão. Não julgue pelas aparências. Quero colaborar. Deixe que eu me apresente.  Trabalho com marketing político, olha, aqui tem meu cartão. E estende um, sacado do terno já todo amarrotado.
–Vocês, ele continua, ainda não sabem, mas somos nós, os marquetólogos, quem ganhamos as eleições contemporâneas. Pode nomear: situação ou oposição, esquerda ou direita. Só não pegamos centro, falta material humano e massa critica, me entende? Pode consultar o Lattes, fui eu quem criei os slogans dos últimos governos.
O passante então se viu cercado por forças de enfurecidos democratas iconoclastas seletivos, e, sentindo o perigo, levantou as mãos para atalhar:
–Calma. Total apoio a vocês. Minha proposta é que vocês ampliem o movimento. Já venho matutando isso faz um tempinho. Sugiro fortemente, por exemplo, que vocês passem a se chamar de S.A.I. A esta altura estava quase sufocando com a gravata que um antifascista estava lhe aplicado.
–Espertinho, vem com malandragem, vem. E o que é que isso ai quer dizer?
–S.A.I. é a sigla para “Só a Anomia Importa”. Percebe? Soa melhor, é mais amplo. Vai angariar mais apoio, incorporará mais gente, agregará os órfãos do anarco-sindicalismo nativo e ainda fica mais charmoso, já que vai encampar o que está bombando pelo mundo: o multilateralismo-étnico-racial-unívoco.  Veja, é assumir a coisa. Honestidade aparente é tudo na propaganda política.
Fez-se um silêncio entre os prosélitos da agressão esclarecida.
–Será que daria para afrouxar a gravata, amigo? Ele deu uns tapinhas amigáveis no braço musculoso do homem que espremia sua traqueia e vestia a camisa com a estampa “Aqui é Marco Civilizatório”.
–Taí, parece simpático. Gostei. Larguem ele, o cara é um dos nossos. Falou o líder, enquanto foi empurrando para o lado aqueles que o estrangulavam pelo pescoço.
O passante tenta se recompor, livra o corpo para ensaiar uma despedida.
–Agradeço a compreensão. Sempre digo, tolerância é a base de tudo. E ergueu o punho para mostrar solidariedade enquanto pigarreava e massageava a garganta recém esmagada.
–Vai Anomia, e gritou, conclamando, a nova palavra de ordem.
–Valeu brother. Respondeu o líder, seguido de discretos uivos comemorativos do grupo.
Enquanto se afastava pensou “Ah,  como é emocionante contar com todo este excesso de civilização”
https://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/contos-minimalistas-dos-totalitarismos-benevolos/

Tudo o que sabemos sobre:

Contos minimalistas

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.