Contra a neutralidade

Contra a neutralidade

Paulo Rosenbaum

01 de março de 2019 | 11h00

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

As vezes, mesmo o justo pode ser trágico. Além de veêmencia a intolerância contra intolerantes precisaria ser normativa. Esqueçam que há, na vizinhança, um País regido por um tirano, que os continentes tornaram-se pródigos em editar regimes de inspiração totalitária, esqueçam até quem financiou e manteve abastecido o sistema político opressor, que os antissemitas encontraram o escoamento ideal no jihadismo político, que as instituições operam como corporações, mas nunca se esqueçam daqueles que sabem e escolheram silenciar.

A omissão é o braço armado do maniqueísmo.

Aqueles que estão no front jamais imaginam o que os antecedeu na luta pela civilização, agem como se não houvesse tempo. Ou como se eles o resumissem. É sempre assim. O marco zero, o nunca antes, os inauguradores da história. Portanto, com tantos precursores sem passado, o renascimento da intolerância não é surpresa, nem fruto do acaso. Sua plantação foi fertilizada por boatos sistemáticos, manipulações estratégicas, regada pelo suave gradualismo da neutralidade.

Isso significa que a humanidade sempre cedeu às pressões do injusto. Atendeu às circunstâncias da conveniência. Mas, se houvesse apenas um, decerto este não seria o principal foco do desalento. A verdadeira ironia é  não termos ainda compreendido que o expectador, aliciado, tornou-se conivente. Que o limite do argumento está na concessão exagerada, na civilidade excessiva, no suporte silencioso ao inadmissível. Ou, como antípoda, propagandeando slogans inverossímeis.Teses de ludopatas ideológicos que sempre buscam o “quase acerto” mimetizando a utopia para defender a agenda inconfessa. Talvez não haja solução, e, se houvesse, obedeceria outro sistema de notação. Buscaria outra origem dialógica.

Aceitar que há um destino é resignação, submter-se é renunciar às idiossincrasias. Não há heroísmo em encampar jogo de regras mutantes. Tampouco há mérito em saber respeita-las como se realmente fizessem sentido para o mundo prático. A paciência ainda seria uma virtude caso renunciasse à instrumentalização movida por paixões.

A seletividade parece ser essa norma instável que aceitamos instalar na cultura. Nas redes e na mídia ela filtra causas, delimita o foco da consciência, busca, com a desculpa da catarse anonima, expiar a indignação. Esvaziar o sujeito para inseri-lo no contexto da invisibilidade. A estratégia porfim impregna-se nas comunicações, infiltra-se na linguagem, e, determinada, ascende às palavras. Ninguém mais se assusta com a passividade, com a legião de cordatos que subscrevem o insuportável. Por inércia, descaso ou parceria à revelia, o essencial desaparece do horizonte, afogado, combalido, já submersso ao largo do continente.

Até que, enfim, corroi-se a justiça.

Eis a tragédia: a capacidade de expressão ameaça sumir no fluxo das dispersões e simultaneidades irrelevantes. No cotidiano automático que pulveriza o entusiasmo. Mesmo inaptos para a selva,  herdamos sua violência, aceitando suas imposições,  vivemos pela instintividade anacrônica.

E, assim, por aproximações sucessivas e inconcebíveis concessões empurramos as decisões até que a imposição de acordos e uma perigosa tolerância infinita substitua a paz.

Insurgir-se contra a neutralidade é, ao mesmo tempo, depurar o veneno do mal estar contemporâneo e aceitar o único grande risco que ainda faz sentido: anular a neutralidade e assumir-se.

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