Contragolpe

Contragolpe

Paulo Rosenbaum

08 Outubro 2015 | 18h39

Contragolpe

–Simplesmente brilhante, se não fosse quem é chamaria de genial.

–Ele é que não gostou nem um pouco.

–Está exilado?

–É o que dizem: discípulo supera o mestre.

–Isso não é ingratidão?

–Desde quando gratidão deve ser obrigação?

— Já soube dos últimos apoios? Gente decente.

–Você não viu o último Ibope?

–Doze pontos e em alta, sabe o que significa?

–Conseguiu virar.

— Fato, virou mesmo.

–Rompeu com o partido e ainda teve a coragem de fazer o rapa. Cortou, demitiu. Despachou os fisiológicos de mala e cuia.

— E ainda assim conseguiu reverter? Como pode? Totalmente inesperado. Não entendo. Se era tão simples, por que ela não gritou independência antes?

–Por que? Está de brincadeira? Você conhece bem esse Partido?

–Se conheço? Credo, já fiz parte.

–Pois é.

–E todos aqueles notáveis que toparam na hora participar do governo interino? Esse foi o verdadeiro milagre. Quem poderia imaginá-la como Estadista?

— Milagre, essa é a palavra, mas foi a sequência toda, a coisa toda.

— Intrigante. Me pergunto como fez tudo isso sozinha? E a outra surpresa então? O discurso foi voltando ao normal, nenhuma maravilha claro, só o normal dela.

–Você foi falando e me veio a luz. A impressão é que ela voltou a pensar. Vai ver que foi depois de escrever a cartinha de renúncia, sei lá um efeito paradoxal.

–Foi ditada?

–Ele, pessoalmente!

–Ouvi dizer que ela rasgou no dia seguinte.

–Na frente dele.

–Quem diria? Depois explodiu e falou tudo na lata, daquele jeitinho delicado dela.

— E Ele?

–Ficou pálido, tentou reagir, foi então que ela chamou a segurança e colocou ele para correr, berrando para não se meter mais com ela.

–Que cena. Você estava na sala?

–Daria tudo para ver. A copeira espalhou a notícia.

–Acho que foi desde lá que a coisa mudou de figura.

–Radical. E os resultados? Em anos, pela primeira vez, consensos, reformas, linha de política externa independente e alinhada com governos sérios, ruptura com ditadores, retomada de diretrizes, pacto pela estabilidade, responsabilidade fiscal.

–Até aquela situação gravíssima do petróleo foi revertida.

— Impressionante.

–Isso foi depois da votação no TSE?

–Acho que não. Aquilo era para ser a pá de cal.

–O enterro

–Foi ali que deve ter caído a ficha.

–Começou no dia em que o TCU rejeitou. Na hora, tentou o papo furado de “variante golpista”, depois aceitou. Parece que então se trancou dois dias, detonou aquela dieta maluca, atacou os chocolates e puff: voltou outra. Acharam que iam interditar quando chamou a cadeia de rádio e pediu desculpas. Foi sincera pela primeira vez desde que entrou para a política. Lembra do que ela falou do marketeiro?

— Não.

— Que ele era tão eficiente, mas tão eficiente que fez todo mundo acreditar nos slogans falsos que criava.

–Espera um pouquinho. Falta um pedaço nessa história. Por favor me faz alguma analise. Do jeito que está não entra na cabeça.

–Se quiser posso arriscar, não vai ser lá essas coisas. Eu te diria o seguinte: ela percebeu que virou escrava do partido. Se no inicio eles só sabotavam de leve, depois o jogo foi ficando aberto e pesado. Ela deve ter tido algum tipo de insight. Resumindo, ela acordou. E não é nada fácil, imagine ser marionete daquele sujeito. A gota água foi sacar: a) ela seria jogada no limbo b) que quando ela caísse fora, ele encarnaria o papel da oposição.

–Foi-se o tempo no qual só principiantes não entendiam o Brasil, hoje em dia nem marmanjões veteranos encaram a tarefa.

–Bom, no caso dela era virar a mesa ou ir ao sacrifício.

–Ela se livrou da peste.

–Peste?

— Peste emocional, vírus da convicção, epidemia de vale tudo, a calamidade que varreu o Brasil.

— Muito estranho. Insisto em culpar o milagre. Como escreveu o o filósofo “só o improvável tem alguma chance de ser possível”