Convenção de bastidor

Convenção de bastidor

Paulo Rosenbaum

23 de junho de 2014 | 10h21

 

 

Desce a cortina e fecha logo essa porta. Deixa entrar só aqueles 50. O que vocês querem me dizer? Vou falar só uma vez: não está acontecendo nada. Tudo dominado. Duvidam? Quais sinais? Ah, isso é foguetório dos pessimistas medíocres. O País parado? Onde? Dá para ver daí? Todo mundo  tomando seu rumo, estádios lotados. Onde é que você viu bagunça? É isso mesmo companheira, a criatura só fica de joelhos diante do seu mentor. [com um dedo faz suave carinho na bochecha dela, que pisca docilmente] Inflação? Estagnação? Ninguém está comprando nada? Mas não pode ser. A fórmula de mercado interno esgotou? Obriguem! João, cria aí o slogan. Pode ser “se não consumir seu saldo vai sumir”. [aplausos] Muito terrorismo? E esse daqui? “compre sem carência, esqueça a inadimplência”. [aplausos] Obrigado. Talento de repentista. A militância não me deixa mentir! [risadas, seguidas de aplausos]. Quem não gostou? Então inventa outra coisa e não torra. Que culpa tenho se enxergam tudo distorcido? Não foi aquele nosso conselheiro quem falou de pessimismo acima do razoável? Esse mesmo, o do milagre. Quem produz está achando que estamos em marcha lenta? Abre esse cofre. O pessoal da economia discorda? Sou eu quem ganha eleições. Nunca precisei de técnica nenhuma, vou na intuição. Agora é jogar o ódio em cima deles. Não! Isso não vou admitir. Não tá na hora de prurido ético, nem dessa bobajada toda de legalidade. Vamos nomeando, nomeando, entenderam? Agora já é meio tarde para pular do barco. Lembram? Fazemos hoje para colher depois. Agora é isolar quem critica. A pequena burguesia? Estão bravinhos porque foram expulsos do jogo, carta fora do baralho é sempre problema. Resolvemos isso aumentando a esmola. Sabem o que interessa? Que quem é peso pesado ainda está comendo na nossa mão. Construímos para o futuro. Jornalistas? Vamos espremer, mas na hora certa. Invertam as coisas: vamos faturar!. Chegou a hora de detonar esse bando de vagais. [gritos de “fascistas, fascistas”]. Não tem microfone escondido aqui, né? O que acharam do “nunca antes, nestes 500 anos?” [gritos e assobios] E onde já se viu a gente ter que se esconder nos estádios que a gente pagou? Dá para bolar um jeito de parar esse negócio? Tudo bem, elite branca foi mal. Acha outro. Põe a culpa nos argentinos. [assobios e ovação] Pega mal? Chamem nossos filósofos, eles sabem como fazer direitinho. O que acham de “classe média argentada mal agradecida”? Não dá? Sei lá, então encontre outro bode. Eu vi, eu vi que você reverteu. Deu certo, eles ficaram constrangidos. Mandou bem. O pessoal agora tá com pena dela. Explora mais isso. E se fosse um hino? O controle da mídia? Estão falando que é o que? Stalinismo? E se falarmos que é “para que o povo não seja tapeado”? Meio batido? [risadas] Agora dá para calar a boca queridos? Me deixem pensar [silencio absoluto]. Calma. [leva as mãos a cabeça, concentrado] Estou tendo uma daquelas ideias. Escrevam, coloque aí: democracia é povo bem informado. Tira as palavras controle e regulamentação. É isso que está pegando. Vamos fazer como sempre [ele pisca em direção aos membros da executiva] No cartaz coloque “mais mudanças”. Claro, sem explicar nada. Manda fazer uma listinha de quem fala mal. Paredón? Não filho, hoje em dia não dá mais, tá fora de moda. Saiu da linha, a gente mete pressão. O de sempre, na moita, louprofaile. Tá acompanhando? Vamos em cima dos veículos. Meteu o pau? É só dizer o seguinte: se esse fulano continuar a escrever isso vamos realocar verbas da publicidade etc e coisa e tal. [aplausos ininterruptos]. É sutil. Só dar a entender. Ameaça sem ameaçar, sacou? É para isso que você é bem pago. Gostei de ver. [aplausos em pé] Vamos lá, que a moçada tá esperando. [urros indecifráveis]