Corações vagabundos

Paulo Rosenbaum

16 de setembro de 2014 | 09h28

Quando o filosofo Hans Georg Gadamer, um dos fundadores da hermenêutica filosófica, publicou seu “Verdade e Método”, alguns sugeriram que o título mais adequado de sua obra deveria ser “Verdade ou Método”: a primeira não poderia ser exatamente compatível com a prerrogativa reducionista que as metodologias costumam lançar mão para “recortar o objeto de estudo.” Pois há uma metodologia para ludibriar eleitores e retalhar perspectivas. Numa campanha vale tudo, a verdade vale menos, e a máquina caça-níqueis em busca de votos é a única realidade. Com tudo isso, ataques, tergiversações e escândalos a todo vapor, e, ainda assim, teremos mais um pleito. A mais nova manobra foi induzir os artistas a emprestar seu prestígio. A militância é uma espécie de cegueira induzida.  Farás tudo que teu mestre mandar, não como ficção de Orwell, mas realidade para a imensa quantidade de gente que se recusa a pensar sem cabrestos.  Os artistas que apoiam o poder tentam transferir sua popularidade à presidente. Apoio e enaltecimento não deixam de ser, ao fim e ao cabo, indicação de poste.  Gente com nome na praça artística deveria ter o cuidado de separar a ideologia do prestígio que acumula. Só precisam aceitar um ônus inerente à este tipo de operação: a taxa de rejeição funciona de forma analógica.

O que mais impressiona é a borracha moral das festas da propaganda política. Para bem além da estética degradada, o triunfo do marketing político contemporâneo é uma garantia de empobrecimento dos debates. O que seria significativo explicitar ao eleitor torna-se efeméride, o superficial ocupa o centro da meta. Não seria mais honesto uma espécie de retiro dos candidatos, longe de assessores e publicitários soprando o que pode e o que não deve ser dito? A agenda negativa que permite desconstruir, é da mesma matriz que pode, depois, negar que se prometeu qualquer coisa. A palavra, que valia bem pouco, pode estar sumindo como referência simbólica de confiança.

Circula um boato na ENDI, a escola nacional de desconstrução de imagens, frequentada por nove entre dez figurões da política. Por que as crenças religiosas pessoais são apontadas como impedimento para uma governança adequada, enquanto perdura silêncio e ninguém menciona ideologias como as verdadeiras armadilhas antidemocráticas? Pois são tão ou mais perniciosas que a fé pessoal de cada candidato. Enquanto a crença pessoal pode ser controlada, os governantes tem plena liberdade para impor suas inspirações político-filosófico-econômicas. Assim caberia equiparar o materialismo histórico aos militantes devotos, assim como os profetas do liberalismo econômico  com os fundamentalistas.

 Ser oposição é uma arte mais dura do que se supunha. Requer destemor para enfrentar a opinião pública iludida e, eventualmente, arcar com uma derrota que insufle racionalidade. Pois, qual é a reclamação? Que não parece ser a razão que triunfa ao final dos pleitos. De fato. Antes, vigora um certo apreço à comoção programática, aos apelos diversionistas, ao emocional, que descongelado, migra ao voto. Em época de eleição, nossos corações vagabundos trabalham mais do que deveriam.

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