Cremação da memória

Cremação da memória

Paulo Rosenbaum

03 Setembro 2018 | 00h22

 

Museu: chave analógica, reunião-dispersão. Foco, ponto de convergência, gregário. Conservatório, galeria, tesouro.

Fatalidade: Vontade-necessidade. Não ter direito à escolha, estar à merce de, só ter uma saída, ser levado à parede, não depender do alvedrio de ninguém, demitir de si a vontade. Os seus dias estão contados. O que for, soará. Isto é dos livros.

Não irei escrever — o que competentes articulistas especializados decerto farão — sobre os 20 milhões de ítens históricos que evaporaram e subiram como cinzas sob o distraído céu que hoje paira sobre o rio de janeiro. Nem sobre os esforços de D. Pedro II em arregimentar e zelar pelo patrimônio histórico material e imaterial do País. Também evitarei mencionar os 470 mil volumes os quais, junto com as peças históricas, quase foram incinerados no altar da amnésia anunciada. Não sobra muito para dizer a não ser reduzir tudo à solenidade do silêncio. Lamentar a falta de dignidade de uma luta invisível que está sendo travada no Brasil. Luta que está, simbolicamente, representada neste incêndio.

Começarei invertendo a ordem: não é que há perigo nos museus. É que museus são perigosos. Especialmente quando vivos. Quando longe das mãos sectárias e censoras. De gestões sob os aparelhamentos que dominaram o País. Afinal, é lá que a cultura fenece sem sequer ter sido devidamente apreciada. Todo museu é crítico. O museu é, talvez, a mais perfeita representação do inconsciente. Nos força, através dos sonhos, mas também fora deles, a rever o que preferimos ignorar.  E entender o que preferíamos ter despejado. Nos mapas e livros rasurados pelo inferno das inquisições. Nas fotos que congelavam paisagens que já nem existiam. Em pinturas e esculturas jamais catalogadas. Em múmias que aguardavam o despertar das novas gerações. Em acervos drenados em ralos sem manutenção. Em meteoritos gigantes que viajaram anos-luz para vir ter à Terra para provar da nossa incompetência. Entre fios sem capa. Em mangueiras furadas, em hidrantes vazios.

Hoje, neste dia 02 de setembro, os habitantes atuais e futuros foram privados para sempre de saber o que os antecedeu. Quem já não escutou o desafio dos eternos neófitos: para que o passado?  Os beócios ocultos que aparecem durante as votações. Afinal o que significa um museu quando existem outras prioridades?

Mas, e se memória fosse o único bem político real? E se sua preservação assegurasse que os erros antigos fossem cada vez menos frequentes? E se a história, representada pelos objetos que hoje se extraviaram no descaso do infinito, resumisse a única lição significativa? Aquela que permanece a despeito da tentativas de sufoca-la? A única reminiscência que sossobra das aulas enquanto os relógios ainda contam as sequencias cronológicas? Como pudemos permitir que o tempo fosse invadido por aqueles que se acostumaram a negar a história? E da história que insiste em ser desconsiderada por aqueles que preferem ignora-la? Ou, soterra-la nos escombros do prgamatismo. Já se perguntaram o que querem eles? Sim, pois eles continuam a desfilar o discurso sem conteúdo, a narrativa que todos nós já conhecemos na tortura diária em rádio e Tv. Para além do que se convencionou chamar “horário eleitorial gratuito para políticos”, um verdadeiro ônus para todos os demais. É que a conspiração não deixa de existir só porque parece urdir paranoias. E, em geral, mimetiza a palavra mágica sacada pelos legisladores em ocasiões como essa: fatalidade.

Claro: Fatalidade prevista. Fatalidade profetizada. Fatalidade recheada de prenúncios. Como a incêndio da Boite Kiss. Como as passarelas que desabam, viadutos que desmancham, enchentes que arrastam, barragens que estouram, edifícios que desmoronam, violência ampla geral e irrestrita que não cede, como as filas de pacientes sem leito empilhados nos corredores, como os impostos financiando regalias e tribunais que alimentam a insegurança jurídica com bônus especulativo.

Decerto, todos signos da mesmíssima fatalidade. Desta fatalidade que só não é muito mais fatalidade do que não poder prever o óbvio. Fatalidade que surge no improviso e é o álibi do despreparo. Da imperícia de agentes que, públicos, não sabem o valor daquilo pelo qual deveriam zelar. De gente, que prefere que o esquecimento vença o conhecimento. O simbólico do atraso é precisamente escolher a borracha para corrigir o que foi grafado pelas tintas acusatórias do passado. Um passado que, mais do que nunca, reafirmaria a verdade em suas múltiplas perspectivas dialógicas. Os museus são particularmente perigosos para os autocratas. Pois eles são, afinal, o conjunto de um inventário do que já fizemos. Eles guardam o que produzimos e as lacunas que ainda precisavam ser preenchidas. Que para cada museu interditado, destruído ou queimado faça surgir, em cada esquina, um museu de ressarcimento.

Quiça o luto de acervo, essa voluntária cremação da memória, sirva para refazer o vazio. E funcione como inusitado fator de união.

Altamente improvável, mas como certa vez o filósofo deixou grafado “só o improvável tem alguma chance de ser possível”.