Crise sanitária e a atualidade de Samuel Hahnemann

Paulo Rosenbaum

05 de abril de 2020 | 22h31

“Quem salva uma vida, salva o mundo inteiro”

Talmud

Para quem ainda não conhece Samuel Hahnemann (1755-1843) médico alemão, nascido em Meissen, foi o fundador de um sistema terapêutico complexo que usa e aplica substâncias atenuadas e infinitesimais na terapêutica. Baseando-se em experiências e induções sua proposta terapêutica era menos baseada no nome da patologia ou de seus agentes etiológicos e muito mais nos sintomas individuais e idiossincráticos de cada enfermo. Grande engano achar que seu sistema terapêutico não tem muito a ensinar à medicina contemporânea, especialmente à luz dos últimos desdobramentos desta pandemia.

O médico de Cós, Hipócrates (460 AC – 377 AC) , o pai da medicina técnica e o inventor da história clínica enunciou três grandes princípios: moléstias poderiam ser cuidadas a partir dos contrários, dos semelhantes e também pelo que mais convém a cada um. Mas esta pluralidade de possibilidades terapêuticas foi, desde Galeno, obscurecida pelo predomínio de apenas um destes princípios anunciados pelo médico grego. Hahnemann então resgatou a ideia hipocrática para reinaugurar o uso experimental do princípio dos semelhantes.

Cito apenas algumas de suas outras contribuições: apoiou a ideia do médico britânico Edward Jenner (1729 – 1823) – inventor da vacina — de que a medicina se beneficiaria com uso inteligente dos agentes infecciosos uma vez atenuados. Quase 50 anos antes de Claude Bernard (1813–1878)  o pai da medicina experimental — propôs ainda no século XVIII uma base empírica para a terapêutica medica. Não o empirismo selvagem, mas experimentos metódicos e sistematizados de acordo com regras claras de pesquisa em seres humanos para entender como os medicamentos atuam provocando sentimentos, sensações e sintomas.

 Desde que as patologias começaram a ser classificadas em árvores nosológicas — ao modo que Carl Linneo (1707-1778) propôs para elaborar a taxionomia do reino vegetal — os sintomas se tornaram “parasitas”da moléstia, vale dizer, tinham valor apenas para estabelecer um padrão classificatório e um valor cada vez menos importante para a terapêutica, uma vez que o interesse estava em estabelecer o diagnóstico do nome da enfermidade. O médico alemão valorizava então os sintomas individuais como os guias mais fiáveis para a prescrição — pois era o que  emergia de suas propostas experimentais — e apontou à medicina de seu tempo um grande erro epistemológico: menosprezar o sintoma como guia para estabelecer uma terapêutica racional. Foi dali em diante muito combatido e, ao mesmo tempo, obteve reconhecimento de boa parte do mundo ocidental pelos resultados práticos que obteve.

Para explicar as epidemias e o uso prático epidemiológico de substâncias medicinais ele ecoou o conceito de Thomas Sydenhan (1624 – 1689) de “gênio epidêmico”, isto é, cada epidemia tinha uma característica peculiar que poderia indicar o medicamento correspondente à intervenção necessária, preventiva, paliativa ou curativa. Um século antes de Sigmund Freud aconselhava os médicos a prestar atenção ao estado mental e à subjetividade de cada pessoa.

Decerto a medicina teve uma surpreendente evolução na última metade do século XX que preparou a atual revolução da biomedicina em aspectos tais como suporte hospitalar, genética, medicina molecular, terapêuticas biológicas, transplantes, próteses, células tronco totipotentes e a agora a promissora imunoterapia. Mas nada disso invalida o que este agente da medicina aportou para o mundo do conhecimento terapêutico.

Apesar de socialmente validada, a homeopatia continua a ser vista com desconfiança e sob um status cinzento para boa parte do mainframe da tecnociência. Ela constitui a base de tratamento para milhões de pessoas no mundo todo e ainda assim tem sido injustamente desqualificada. Os autos acusatórios vão de pseudo ciência a charlatanismo, mesmo que em seu portfólio constem metanálises favoráveis e um amplo programa de pesquisas. É evidente que as pesquisas ainda ficam a dever quando se trata de uma explicação consensual para, por exemplo, explicar e  demonstrar experimentalmente como uma droga ultradiluída em misturas soluto-solvente  pode apresentar a plausibilidade biológica e eficácia reivindicadas.

O sistema ao qual Hahnemann deu origem, hoje mais conhecido pelo nome de homeopatia é frequentemente atacado. Fora os auto evidentes interesses pecuniários das grandes indústrias e corporações farmacêuticas para eliminar qualquer competição, há muita gente que critica sem conhecer ou se dar ao trabalho de experimentar o método. Mas aqui também opera outro viés, binário, muito mais sutil e raramente denunciado. De um lado a militância partisã adepta do ceticismo cientificista e, de outro, uma idolatria fanática que tem a nostalgia da contracultura por métodos “não convencionais” ou anti establishment. Algum grau de ceticismo não é defeito, é mesmo uma qualidade básica para o investigador científico desde que ele investigue qualquer matéria sem preconceitos. Infelizmente não é isso que ocorre quando se trata de avaliar com imparcialidade as medicinas integrativas. Quando a ideologia e a ferocidade não científica afloram,  a racionalidade desaparece e é a humanidade quem mais perde.

A pandemia suscitou nas redes sociais e na opinião pública uma enorme insegurança diante da não uniformidade na interpretação dos dados que foram emergindo conforme o avanço do número de infectados. Apesar do relativo sucesso da proposta de barreiras epidemiológicas tais como o distanciamento social para diminuir a velocidade de contágio o problema prossegue diante do que fazer com a porcentagem dos doentes mais vulneráveis e que precisam de mais suporte e assistência. E depois, em como lidar com os impactos gigantescos na economia dos Países afetados.

Vacinas, sulfato de hidrocloroquinino com ou sem azitromicina associada, transferência de plasma, e, mais recentemente, o antiparasitário como a ivermectina entraram no rol das controvérsias sobre qual seria a verdadeira eficácia terapêutica de cada uma delas. Quanto tempo precisamos para usa-las com segurança? Deve-se ou não usar drogas não amplamente testadas em casos que evoluem desfavoravelmente? E quanto a usa-las precocemente? Em muitas epidemias as medicinas integrativas foram convocadas para unir forças para mitigar a crise sanitária, foi assim na epidemia de escarlatina na Europa (1790), foi assim na pandemia do colera (1820), na gripe espanhola (1920). Desde janeiro deste ano o Ministério da Saúde da Índia sugeriu o medicamento homeopático Arsenicum album e o distribui maciçamente para a população como medida coadjuvante para a prevenção do doença causada pelo covid 19  que emergiu em Whuhan. Será preciso esperar para ver se o achatamento da curva de contágio lá irá se comportar de maneira diferente. Não seria ético e interessante por parte das autoridades sanitárias ouvir o que as outras formas de intervenção médica tem a dizer?

Importante esclarecer que a medicina — apesar das fantasias do senso comum — não é uma ciência exata. Alguns epistemólogos já a classificaram apenas como uma “ciência operativa”. E apesar da medicina ter critérios tecno-científicos unificadores, tais como a pesquisa científica,  ensaios clínicos randomizados pesquisados em duplo ou triplo-cego (quando nem o  pesquisadores nem os pacientes sabem se estão tomando o vero remédio verdadeiro ou o placebo), estudos epidemiológicos de coorte, de comunidade e transversais,  é preciso enfatizar que ainda assim ela não tem a uniformidade idealizada, nem é completamente homogênea em seus procedimentos.

Isso fica particularmente evidente quando as drogas descem ao campo empírico, ou seja, vão ser testadas em grandes populações: é que ali os efeitos colaterais, paradoxais e outros, os inusitados, aparecem e são registrados nas publicações validadas pela revisão dos pares. Conforme os autores Goodmann e Gilmann escreveram com rara honestidade em seu monumental trabalho “As bases farmacológicas da terapêutica” é somente no momento que as drogas vão ser usadas pelo grande público que saberemos se realmente funcionam a contento.  Os testes experimentais em cobaias e nos seres humanos são preâmbulos importantes, ainda assim preâmbulos.

Quando a terapêutica desce à operacionalidade, a verdade é que a arte médica varia de médico para médico, pois trata-se de um aplicatio que envolve também e principalmente a percepção subjetiva da evolução clínica, o assim chamado “olho clínico”, onde só a estatística e a “medicina testada” podem não ser suficientes para uma tomada de decisão.  E a decisão precisa ser feita especialmente nos quadros graves e agudos como é o caso de uma epidemia que apresenta alta contagiosidade decorrente da mutação viral. Mutação que nos torna temporariamente desprotegidos para responder à agressão de forma adequada. Isso implica em respostas imunes débeis onde muitas vezes o processo alergo-inflamatório leva a melhor. A resposta imune adequada virá com o tempo e mais uma vez sobreviveremos até a próxima eclosão de algum novo vírus espertalhão. Por isso é tão importante prestar muita atenção naqueles que se curaram espontaneamente.

A iatrofilosofia, ou filosofia médica,  comporta muitas tendências e pontos de vista e isso não deve ser tomado como descrédito. A ciência sempre caminhou através de refutações e retificações constantes. Este é um padrão correto da pesquisa, quando muitas vezes deparamos com o contraintuitivo, o não esperado, e até mesmo o surpreendente na técnica tentativa e erro. Sim, também é uma técnica.

Inúmeras propriedades e efeitos medicinais de drogas conhecidíssimas,foram descobertas empiricamente, isto é, quando começaram a ser usadas em grandes populações. E é preciso enfatizar que também muitos desastres clínicos decorreram deste mesmo empirismo prático  como, por exemplo o uso da talidomida e mais recentemente o anti-inflamatório de nome comercial Viox. A resposta ao dilema é que nada pode ser descartado e que as pesquisas científicas precisam ser ininterruptas.

Surgem, de tempos em tempos, pesquisas e pesquisadores autônomos como o prêmio Nobel de Medicina Luc Montagnier (virologista que descobriu o vírus da AIDS) e Jacques Benveniste (imunopatologista e alergologista francês que formulou a teoria da “memória da água”) tangenciaram hipóteses que ajudam a validar as premissas defendidas por Hahnemann, não só como uma prática que produz importantes resultados clínicos e com potencial para atuar na atenção primária, porém como uma rationale, que faz muito sentido para a epistemologia científica de nossos dias.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: