Da natureza irracional do perdão

Paulo Rosenbaum

08 de outubro de 2019 | 17h40

 

Qual é o sentido em perdoar? Na tradição judaica, cujo jejum no dia de Yom Kippur significa o ápice da tradição de desculpar e desculpar-se, diz-se que o Altíssimo deseja perdoar e até reza a Si Mesmo para ser clemente. Mas podemos de fato perdoar? Há fatos que tangenciam a indesculpabilidade, e, o desafio que se propõe é que a clemência subjugue a ira. E quem consegue sem frequentar um analista sério ou bloquear o sistema límbico com psicofarmacos?  Poucos. Talvez ninguém. Pessoalmente, tenho algumas experiências: já perdoei o cão que me perseguia diariamente ao ir para a escola. Consegui desculpar um conhecido que solenemente escolheu ignorar-me para sua festa, não antes de me pedir ajuda quando um de seus convidados passou mal. Pude até ser clemente com malidiscentes que tentaram me prejudicar.

O perdão é um conceito antagonico a uma proibição explicita para a tradição judaica: vingança, represália, retorsão, despique, ultrice. Todas elas interditadas pelas normas de Israel. Pois que a vingança é o oposto, a perfeita antítese da justiça. Isso não significa que podemos ser condescendentes com com quem perpretou e produziu vítimas.

Talvez valha a pena explorar a inversão filosófica: o que não é perdão?

Numa época na qual tangenciamos, mais uma vez, os limites da intolerância é importante fazer ressalvas. Estarmos submetidos à hegemonia política ou de qualquer outra natureza de certa forma, também representa a antítese do perdão. A falta de compaixão com a vítima do mal feito, idem. Reparar o erro com o sujeito individual ou com a sociedade ocupa uma posição hierarquica superior do que desculpar aquele que cometeu a ofensa.

A punição é o último recurso que os homens encontraram em seus respectivos sistemas de justiça para tentar obter, por via artificial, o arrependimento que parece que, em certas naturezas, não consegue se expressar de forma espontânea. Em geral não funciona, o que representa um dilema, pois pode a sociedade perdoar quem mostra-se convicto, e cada vez mais convicto de que seu mal feito é na verdade um benefício disfarçado de perversidade?

Mas o perdão metafísico é um mistério distinto. Trata-se de realmente perceber que qualquer um poderia ter feito o que foi feito, não só porque a carne é fraca — e o bolso idem — mas porque é da natureza dos habitantes cederem às tentações. O perdão inspirado no Altíssimo entretanto, parece ser de outra origem, se quiserem uma palavra que ofende os bem pensantes, mas me ocorre, “sagrado”. Ora, e por que não? O sagrado não é dogma, não é axioma definido por uma religião institucionada, mas uma instância quase inatingível que denota sentimento de amor e de justiça.

Assim como um ato impulsivo ou atitude impensada o amor pode ser também concebido como uma desrazão, vale dizer, uma irracionalidade benévola. “Benevolência”, também é uma palavra que pode inspirar repulsa nos ideólogos que abominam reflexões axiológicas, mas é aquele que, para além do maniqueísmo instrumental das doutrinas, pode fazer com que se deseje o bem sem contrapartidas: a auto-transcendência. Já o arrependimento não é só um impulso comportamental superficial e auto-indulgente, mas a percepção de que, na intimidade, subjaz uma consciência de que se pode ser bem melhor do que se é.

Claro que muito dessa perspectiva tem sido instrumentalizada nas sociedades contemporâneas para justificar abusos, uns contra os outros, desrespeito à liberdade e bulyings de Estado que atingem os cidadãos, mas aqui me refiro aos relacionamentos que para bem além do cronológico tem real valor: encontros, reuniões, os amigos, a família, as confraternizações, a alegria imotivada (solitária ou gregária) e até mesmo a melancolia contemplativa.

De qualquer forma, o perdão funciona ao modo de catarse, como um esvaziamento psiquico, e, terapeuticamente falando, pode aliviar até mesmo mesmo a natureza mais refratária à bondade. Sua natureza irracional não lhe retira o mérito, na verdade, o engrandece. E ainda que exercido de forma mecânica e protocolar pode ser uma faísca para regenerar sociedades fendidas. Trata-se portanto, antes de tudo, de um exercício.

Pratiquemo-lo.

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