Daqui em diante.

Daqui em diante.

Paulo Rosenbaum

09 Novembro 2017 | 01h33

 

 

 

 

 

 

 

A história e seus efeitos não mais se erguerão contra aqueles que a constroem.

Aqui ou acolá, você poderá encontrar neo czaristas estáticos ou nostálgicos do muro de Berlim intacto. Os lados ainda não perceberam: só existe o presente contínuo, só vale o daqui em diante. E não importa muito como fazer valer o daqui em diante. Se há uma certeza é que, desta vez, não nos deixaremos paralisar. Recusaremos branco ou vermelho, esquerda ou direita: aprendamos a recusar todo código binário. Daqui em diante a inércia deixará de ter o monopólio da força. Prometemos dissidência às hegemonias, aos partidarismos, à militância, às ilhas de ideologias. Daqui em diante, observaremos movimento a movimento, a direção das árvores, as palavras inarticuladas, o subtexto dos contextos. Daqui em diante não permitiremos que a vida esteja cercada, encarcerada pelo obscuro. Não prometo, mas daqui em diante, tua sombra será assimilada por outra, mais dura, mais opaca, mais resistente. Daqui em diante, e por que não dizer já, as concessões serão revogadas. Daqui em diante, sem entrar no jogo que eles fingem não jogar, serão outras regras.  A partir daqui ,desligaremos a chave mestra que te sustentava. Será a dimensão e a geração que andará ao largo do “nós e eles”. Sim, é isso, apagaremos os registros da tua presença. Nada a ver com intolerância. Trata-se de uma calma que desconhecíamos. Um renitente sentimento, de coragem, que só hoje percebemos. Daqui em diante tua voz não nos consumirá, nem tua imagem nos sondará em círculos. Hoje, mas principalmente daqui em diante, a determinação superará teu escárnio. E teu deboche estratégico, nos abrirá uma clareira no sossego. Teu sumiço trará de volta a fusão de horizontes. Superar o fantasmagórico da tua imagem será alivio suficiente. Abolir o culto à personalidade é que nos comoverá. Sem saudades, embarcaremos numa plataforma na qual você será obsoleto. Daqui em diante – me  convenço sem esforço – seremos mais fortes que tua capacidade de explosão, menos emocionais para sucumbir à sedução. Negaremos teu estado de negação.  Tudo pode ruir ao teu redor agora que seguiremos adiante. Doravante, ou daqui em diante. Mudaremos de casa em casa, de rua em rua, mar ou campo, tempo frio ou ensolarado.  Ninguém mais será ofuscado. Irmãos farão as pazes nas praças. Daqui em diante nossa casa não será mais tua. Nos mercados, nas inspirações, nos passeios públicos, nossas vidas afirmarão a variedade que jamais toleraste. Por isso, nenhuma revolução nos serve. Tua voz efêmera, despencará no vazio. No registro irrelevante. A história — e seus efeitos — não mais, não mais se erguerão contra aqueles que a constroem.  Seja como barricada, pólvora, ou combustão inata. Daqui em diante, e para sempre, será esta a marcha que te acordará dos sonhos impostos. O sucesso de estima não será mais rima.

Teu discurso será destroços, distantes e frios, secos e inúteis. Daqui em diante nenhum homem te depreciará, será melhor: perceberá que consegue viver sem tua dependência. Respirar sem tua anuência ou condescendência. Seremos apenas o resultado benéfico de outra compreensão. Até que diremos sim. Sim à natureza vivaz que se compraz em tudo que é veraz.