Dia do Levante no Gueto

Paulo Rosenbaum

19 de abril de 2020 | 17h54

Neste dia 19 de abril, em 1943, iniciava-se a Revolta do Gueto de Varsóvia. A população judaica do gueto submetida às piores condições, as mais subumanas e degradantes de existência. Sob imagináveis sofrimentos e completo abandono, a população civil insurgiu-se heroicamente contra o poderoso e covarde inimigo nazista, num ato de pura insubmissão. A revolta terminou só no dia 16 de maio com 13.000 judeus mortos e o gueto destruído com o restante da população enviada para o campo de concentração e posterior extermínio em Treblinka. Foi o maior levante judaico da Segunda Guerra Mundial. Perdemos parte da nossa família na revolta, que morava nas cercanias do levante, o que só nos enche de orgulho pela perseverança e capacidade de perdurar, mesmo em meio as barbáries e adversidades. Estivemos lá, continuaremos aqui. Aqui, dois poemas homenagens “Seis Milhões” e “Diário de noite na rua New Olipik” – Do livro “A Pele Que Nos Divide”. Quixote-Do, 2018.

SEIS MILHÕES

I

Os seis estão bem aqui.
posso senti-los
sob meus pés,
regulares, como todas as descidas rítmicos como gelos.

intensos como florestas

No declive de gênero fantasiados de corporações
nos trens improvisados,
como maquinas de extração

enquanto metrificavam judeus,

a IBM e a Krupp
acendiam os fornos da despensa

Do trem, digo
não era noite ou fumaça e de todos os dias,
o carrasco detinha
os trilhos da proficiência

Não vi campos,
nem sinais de gritos, ou angustia das vitimas

senti cada parada
cada pequena que viveu nas cavernas preservadas nas coleções intactas
ou na predação canônica

A seleção naturalmente objetivada pela negação da naturalidade.

Não me interessa que não vi, (nem quem não viu),

Nem quem soprou seu silencio para o vapor da constância,
de quem preferiu as mãos
que alimentam quem dizima.

Só saberemos quando vivermos nos esconderijos

desacreditados na sonolência de nossos dedos ou nas qualidades extintas

como nós,

extintos.

Não importa (nunca importou) o cultivo, mas a produção,
o apreço por resultados,
o rastreamento de objetos

que com vida ou sem melancólica seré,

Aí temos o protocolo superado

a experiência romântica sustentada na escala

Enquanto o mundo pensa em paz,

Na calma capturada do carvão dos ossos

A travessia que importa
Usa força do solo como tingimento,

E, como furos em flautas
alternam sons com acendimento
de vela perfiladas,
nas presenças sem sequencia.
na curva do mundo

Na atenuação final de vidas em estudo

Porque nossos olhos retém
o não expresso

E, como trens, invadimos o mundo com troncos negros Na matéria que se impõe como referendo do espírito,

Agulham nossos dias com palheiros e, à latitude da ilusão.

Aterram o assombramento

Tudo, tudo mesmo
e para que essa perplexidade
gere totens
e olhos sem braços nos alcancem
em noite de cristais, pogroms ou vidraças nos nomes que esfacelem a realidade, que, sem chances, observa
a violência do descuido

Mas a noite, sim, anônima

Impõe a presença

Recontada ao infinito

Mesmo que cada grão do carbono esgotado Entupa de maturidade as nações

Achamos que,
do tabuleiro de onde estiver,

deves absorver tuas regras.

II

Para infortúnio geral
Somos um passado atento
Seis milhões nas curvas
Assistidos com a brutalidade da demora O esquecimento do mundo
A carga excessiva
Que impressiona apenas
os tolhidos da cena

(Em Stuttgart testemunham-se monumentos nos quais as vitimas são eles)

Mesmo à distancia do meio do Atlântico Estancaremos perto do nada

Só faz 70 anos
Os campos estavam nos libertando da vida
Enquanto a eugenia dos doutores
do partido
Subiam de incenso na mente do povo do silêncio

Ah, estamos em comunhão Mas, para registros futuros jamais o barometro do céu agira aqui-agora

como o esmagamento do ali-afora.

 

STUTTGART–PARIS JUNHO.2007

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DIÁRIO DE NOITE NA RUA NEW OLIPIK

Responsa do Eterno
(para Nachmann Ben Wolf )

só posso ouvir o dia nas noites
noturnos são gatilhos de engrenagens

que nos varrem

só posso saber de ti
se houvesse um quintal qualquer, qualquer um, desocupado de gente, mas tudo, decisivamente tomado

só posso trincar o gelo se houve leitura
mas tudo esteve atado
a biblioteca estalava de papéis despedaçados cadeiras varavam janelas.

só posso medir o gueto pelo volume de fagulhas de onde olho, traças, nenhum grande inseto

só posso me mexer
na meticulosidade dos estremecimentos nas calcadas, entre tanques em branco sapatos e crianças espalham-se sem donos

s;o hoje vi a luz do dia. da varanda oca
D-us acenava:
só mais um minuto

quando levantei ocorreu o seguinte: só agora via tudo
as fotos regiam os meus anos, celebrei mais esta noite

só agora sei que vivi a tragédia uniforme

e só a infância,
é a eterna resposta do Eterno.

 

https://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/dia-do-levante/

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