Dia dos perdoados

Dia dos perdoados

Paulo Rosenbaum

03 Outubro 2014 | 16h34

 

Quem é perdoado reconhece o que se perdoou? Na generosidade irrealista do perdão, o perdoado raramente repara no que acaba de receber. E aí há uma interessante inversão. Uma carga às avessas. Um espaço criado à força. A inesperada perspectiva de reparação. Pois um perdão não precisa ser justo, coerente, adequado ou mandatório. Sua oferta, inclusive, prescinde origem, circunstância e justiça. O perdoado não necessariamente mergulha no mérito. Perdoar é um verbo estranhamente impreciso, porque não pertence à agenda da razão. Rompe com qualidades às quais  acostumamos no universo da des-subjetivação. Onde bens, serviços e relações instrumentais ocuparam o lugar da solidariedade. Um perdão é, portanto, uma reconsideração filosófica de valores. Pode ser a pequena meditação sobre um julgamento, mas também, elevar a potência de uma consideração. Perdoar é abandonar voluntariamente – e não à revelia, essa é toda a diferença – a nostalgia. Esquecer o passivo parece medida anti terapêutica. Talvez não seja. Destarte, há que se impor a particularidade. A alienação e a passividade não podem valer frente aos opressores e regimes tirânicos, potenciais ou reais. Com efeito, já que o silêncio aplaca a repressão, toda perspectiva totalitária exigirá grito, resistência e luta. A mentira, dita com convicção, constrange. Eis que em tempos de cólera política, a alienação pode ser o oásis da neutralidade. Por que nos impomos escolhas? Ao sim ou não, ao agora ou depois, a este ou aquele, ao sucesso ou fracasso? Um dia de expiação não é para sofrer, mas buscar o neutro. Neutralidade não significa anulação (não anulem), mas atuação pelo desconcertante. Através da metáfora da desrazão, perseguir a paz da incoerência. A relativização da seriedade e a recuperação do humor. O verdadeiro desvio do previsível. Já que alguns significados do perdão devem recair na metafísica, sua máxima concretude pode estar em passar sobre as ofensas, alcançar o outro na congratulação do dia a dia, e sentir se há alguma fusão de horizontes em vista.

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