Diário de apartamento 4 – O sentido das carpas.

Diário de apartamento 4 – O sentido das carpas.

Paulo Rosenbaum

23 de junho de 2020 | 13h53

Sexagésimo segundo dia. Resolvi arriscar, fui adiante visitar uma praça do bairro. Andei por 25 minutos. Os músculos não respondem, mas eu os ordeno. É evidente que a quarentena deixou de ser só uma medida sanitária. Trata-se, concluo, de um novo tabu. Um confisco subjetivo da vontade individual. Também aprendi que não é um tema que valha a pena ser discutido em público. Só o faço por obrigação moral. Vivemos dias perigosos. Corre-se o risco de virar um alvo para depois alguém sacar uma jurisprudência qualquer contra você. Tocada sob a hermenêutica expressa. Ditada pela urgência, hoje qualquer um pode ser vítima dos juízes. Que dias, que dias! Os regulamentos do contrato social de repente sumiram sob as canetadas de quem precisava mostrar ação, mas perdeu a compassividade. E nunca teve a capacidade de imaginar. “Amparar  aqueles que dependem do Estado.” Lembro então do folheto que herdei de uma biblioteca perdida: “O Código Penal Fascista” de um autor italiano que combateu o verdadeiro fascismo, e que em 1942 precisou se exilar no México: Francesco Frola. Lá está no original, conforme foi criado, o artigo 213, a figura da “pessoa socialmente perigosa”. É o vago, é a imprecisão da linguagem que guia a mente totalitária. Ao avaliar a ignorância que levou o senso comum a pasteurizar a palavra “fascismo”, com suas hostes prós e anti, penso ter me tornado uma espécie de artigo 213 ambulante.  Não por ser violento, certamente não por ser destrutivo. E decerto não, sob o álibi da luta antirracista, por ter-me transformado num discriminador seletivo. Mas apenas por duvidar das regras de autoridades que perderam a autoridade. O arbítrio sempre será justificado pela ideologia. É o ganha-pão do pensamento único. Ninguém pode nos acusar de não termos multilateralismos: todos eles de pensamentos únicos, disfarçados de pluralidades, de denúncia do ódio alheio, de cinismo diplomático.

Esqueço que digressões não são mais perdoadas. Volto à minha jornada. Esqueço as lamúrias e acelero o passo. Noto que os transeuntes estão cabisbaixos. Alguns passeiam com animais. Um ambulante empurra seu carrinho desabastecido. Pipoca ou bijou? Vai saber. Ninguém compra, ninguém vende. A lei de oferta e procura? Suspensa por decreto governamental. Nem capitalismo de Estado temos. O sujeito olha a procura de clientes e enxuga o suor do rosto percebendo que fracassará.

Vejo um pequeno lago artificial e constato, mais uma vez, que as carpas também flutuam indiferentes ao mundo. É repetitivo eu sei,  mas assumo, neste momento a redundância é mais do que necessária. Além de ser a mais pura expressão da verdade: os animais e os objetos não vivem a aflição do mundo, a não ser como nossas projeções. Mas a alienação de tudo que não vem dos humanos diz muito mais de nós mesmos do que gostaríamos de admitir: por que compramos tanta angústia na banca das mídias? Quem está nos informando sobre o mundo externo? Com qual qualidade somos comunicados? Com que filtro analisam a realidade? E por que sempre como prescrição do que é a boa escola, o bom partido, os verdadeiros democratas, os cidadãos que, de um púlpito imaginário, sabem o que é melhor para todos? E sei lá em qual porcentagem, mas sei que são sempre os mesmos disfarçados de “grande frente”.

Observo então os arredores. Pessoas sem expressão. Será que as máscaras tiraram a espontaneidade? Estará a mímica ocluída pela vestimenta, a qual também funciona como mordaça? É indecifrável, e não tem nada de novo normal. Me parece que a evocação do neo realismo não passa de uma forma de escavar algo duro com as unhas, em terra batida, até que se ache algum sentido. Mas e se não tiver sentido algum? Tremo pela constatação que acabei de fazer. Mas, e se poucas coisas fizerem sentido?

A esta altura fica claro que o espaço para desafiar as normas vem se estreitando. Por que uma moléstia pode determinar a restrição da liberdade? Só eu acho isso grave? Enfim, pisei na área livre da grama do parque. Cheguei ao centro da praça, uma criança sem máscara me observa com estranheza. Sua mãe ou babá, difícil dizer, o arrasta para longe pela mão, censurando sua aproximação. Ela o puxa até um balaço enquanto consulta o celular. Me aproximo da agua de uma fonte que jorra da boca de uma escultura de um sol vermelho estilizado. Espalham-se os íons negativos. Ali, dizem os físicos, estamos no reino da negantropia: perdemos menos matéria, poderíamos até nos recompor. Será este o grande segredo das carpas longevas?

A criança ainda me observa enquanto acompanho os peixes que sobem à superfície. Imaginam que trago migalhas?

Proibido de entrar na área, o ambulante estaciona seu carrinho e me acena com a mão.  A praça se esvazia aos poucos. Será seguro respirar? Puxo a máscara e arrisco um sorriso. Só a criança, ainda atenta, sorri de volta sem imaginar a distância que nos une.

Hora de zarpar.

Desta vez, os músculos obedecem. Noto que a fisiologia é rebelde à tirania. O ânimo é o único que vale a pena ser cultivado. Sigo andando. A permanência da vida tem uma estranha autonomia. As carpas tem toda razão.

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