Diário de apartamento 8 – Hesitação e o desejo de viver

Diário de apartamento 8 – Hesitação e o desejo de viver

Paulo Rosenbaum

27 de dezembro de 2020 | 09h06


No texto de Kafka “Retorno ao Lar”, traduzido por Anatol Rosenfeld, há uma frase cujo poder de desestabilizar atingiria até mesmo o mais convicto dos estoicos:  “Quanto mais tempo se está a hesitar diante de uma porta, mais estranha vem ela a se tornar”.

Pois é possível que nossa espreita diante desta porta esteja prestes a terminar. Isto é, ela será rompida à revelia. Não, infelizmente não será o fim desta virose.

Já se sabia, mesmo depois de um considerável êxodo dos grandes centros urbanos provocado pela pandemia, que para os “de maior risco” como é o meu caso a decisão de sair nunca seria fácil. Lembrava da frase,”Não saia nunca”. Sair de casa, da rua, do bairro, da cidade. Jargões, quando esmagadoramente repetidos, penetram na cultura e viram vício de informação.

–Você vai sair? Guiar 300 km e ainda pegar uma balsa? Que coisa mais arriscada meu amigo.

Foi o que ouvi quando comuniquei ao amigo com o qual jogo xadrez à distância que sairia da cidade.

–É um risco calculado, tentei tranquiliza-lo.

— Preferia que você usasse a defesa siciliana. Ora, com quem vou praticar as vitórias consecutivas se você…

— Pode falar, não se deixe dobrar por tabus: se eu for contaminado, precisar de tratamento, sair da vida…

— Até a volta, então. Ele se despediu abruptamente e um pouco constrangido.

Depois de nove meses quase recluso convenci-me através de um sonho que precisava romper com a sensação de prisão domiciliar, e, uma vez vencida a lei marcial, os obstáculos da censura e as exigências sanitárias, ousei viajar com a família.

É preciso considerar que durante as notícias desencontradas sobre o vírus e suas consequências, as exigências por nossos direitos foram se enfraquecendo. O número de restrições, arbitrariedades e massacres justificacionistas contra as liberdades individuais foram sendo costurados, vale dizer, foram sendo impostos, sem persuasão, sem instruções preliminares, sem campanhas educativas consistentes. O que se viu foi pura cena de arbitrariedades racionalizadas sob o uso de decretos cujos slogans genéricos tinham como base “desejo de salvaguardar a saúde e o bem estar da população”.

Apesar de a própria OMS ter alertado de que procedimentos restritivos indiscriminados apresentariam potencial risco de sublevação, motins e rebeliões contra ordens de fechamento, os governantes preferiram assim agir. E, até aqui, na maior parte dos casos, observou-se apenas ordem e mansidão, a mesma que costuma acometer rebanhos paralisados, acríticos, efeito tardio sobre os acuados pelo pânico. Mas as coisas vem mudando e rapidamente.

É o subtexto desta mansidão que nos interessa, independentemente do mérito de  suposta eficácia das medidas adotadas. Estão quase nos convencendo de que os direitos republicanos não são exatamente uma conquista por mérito do cidadão, passaram a ser magnânimas concessões do poder. Uma democracia que segue esta trilha causa mais calafrios do que regozijo. A verdade é que, sem mecanismos para retifica-la e arranca-la dos estranhos atalhos da doutrina  garantista, das concessões que gratificam a transgressão e dos entulhos autoritários apelidados de flexibilidade hermenêutica, o próprio caráter de representação política vai sofrendo uma corrosão cada vez mais difícil de ser reparada.

Agora pensem novamente no ônus da prova. A quem cabe prover saúde? Mas não é que itens de primeira necessidade e essenciais precisam vir venham acompanhados de segurança e transparência?  O Prof. Walter Maffei, de abençoada memória, sempre alertava contra os modismos em medicina, das patologias aos novíssimos medicamentos. Se a doença em voga é perigosa e mortal para alguns — como de fato é — para muitos representará apenas confinamento e bancarrota, isolamento e loucura. Para os que acham que é um preço razoável a se pagar, reduzo-me ao silêncio.

A complexidade exige que se supere o bidimensional e que se observe a realidade como um holograma. Os clínicos que o digam. Mas o fato que precisa ser analisado é que os efeitos colaterais das decisões também precisam entrar tanto no radar dos epidemiologistas de plantão, como no das equipes transdisciplinares.

Mas elas de fato existem? Se existem, onde estão? Alguém soube de um conselho assim reunido?

E se estes fatores extra saúde stricto sensu como desemprego e desesperança não entrarem na avaliação é porque a manipulação tem sido maior do que a acurácia científica. Por que tanta controvérsia sobre tratar precocemente? Isso tem sido devidamente investigado? É evidente que grande maioria não negará o poder da proteção vacinal. O que é desnecessário é a coação e decisões judiciais de sanções contra quem não está convencido ou seguro.  Quando há responsabilidade a começar por quem deveria servir de modelo.

Meu amigo enxadrista costuma dizer

— Entre nós, os modelos e os eleitos expiram antes do prazo.

Ninguém quer se arriscar sem necessidade. Não sem que se atestem os parâmetros de segurança, eficácia e sobretudo transparência. Não bastam discursos de políticos ou relatórios pomposos de experts assalariados, cujo compromisso prioritário parece ser com o poder.

Foi depois de um sonho que decidi viajar para uma ilha, e, como diz o texto, nenhum homem é uma ilha. Destarte, posso dizer que a experiência mostrou algo distinto. Quando se trata da vida prática somos uma infinidade de arquipélagos. Era ingenuidade imaginar que não seria assim, afinal por mais que a modernidade tente homogeneizar as respostas individuais são as idiossincrasias que comandam as decisões humanas, assim como as variadas sensibilidades às doenças e às substancias medicinais.

Nunca considerei que fosse tão confuso. É possível atestar o resultado prático desta confusão saindo nas ruas nas diversas cidades para constatar — como minha esposa observou — que as pessoas e os agrupamentos humanos vivem simultaneamente em universos paralelos. Encontramos  pessoas obsessivas, resignadas com um ultra confinamento fóbico, mas também aquelas que já abandonaram todas as precauções e seguem vivendo como se nada estivesse acontecendo. Não acho que a polêmica aqui seja entre “afirmacionistas” ou negacionistas e me recuso a julga-los. Acho eticamente desprezível julgar o contexto alheio sem todos os dados. Concluo apenas que o caminho do meio e o bom senso estejam mesmo em desuso.

O uso político do medo é uma arma tanto velha como eficaz. E é saudável que as pessoas estejam desconfiadas das informações de um sistema que deu múltiplas demonstrações de desprezo em relação à opinião pública.

Voltando a Kafka, quando a porta vai mostrando sinais não mais de estranheza, mas de ruína, o desejo de escancara-la supera a hesitação.

Se o Dr. Maffei estivesse vivo eu não hesitaria em perguntar e foi o que fiz no sonho que enfim me encorajou para colocar os pés na estrada e viajar:

— E quanto a este vírus Prof.?

— Você sabe que não gosto de falar sobre medicina, prefiro ouvir música clássica. Mas já que me perguntou, isto tudo dai vai passar e você sabe por que, não sabe?

— Acho que sim Prof.

— O vírus quer viver e se espalhar, seu objetivo biológico não é matar o paciente, por isso, com o tempo e com as mutações, a tendência é que ele seja de fato mais contagioso, mas ao mesmo tempo produza menos sequelas e seja menos letal.

— E o que devemos aconselhar as pessoas?

Ele me olhou desconfiado e com seu peculiar jeito peremptório falou em voz baixa:

— Mas é evidente que prevenção, tratamento precoce se houver e os cuidados de sempre.

— Sem esquecer que o risco sempre existe…

— Olha aqui, e me olhou com severidade, e sob uma expressão quase iracunda: a única coisa que o médico não tem o direito é de desanimar o paciente.

Quando acordei a decisão estava tomada.

Abrir a porta e enfrentar a fobia já não era mais uma questão de vontade. A hesitação foi substituída pelo desejo de viver, cuidadosamente, mas viver.

 

 

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