Diário de apartamento 9 – Ilhas de sanidade

Diário de apartamento 9 – Ilhas de sanidade

Paulo Rosenbaum

05 de abril de 2021 | 12h46

Diário de apartamento 9

Gradações da insanidade.

“Não rir, não lamentar, não odiar, mas sim compreender.”

Baruch Spinoza

“Hoje não sinto vontade de demonstrar que a sanidade é impossível. Ao contrário, embora eu permaneça não menos triste do que no passado, de que a sanidade é um fenômeno bastante raro, estou convencido de que pode ser alcançado e gostaria de ver mais disso. Por ter dito isso em vários livros recentes e, acima de tudo, por ter compilado uma antologia do que os sãos disseram sobre a sanidade e os meios pelos quais ela pode ser alcançada, (trata-se do Livro “Filosofia Perene”) um eminente crítico acadêmico me disse que sou um triste sintoma. do fracasso de uma classe intelectual em tempo de crise. A implicação é, suponho, que o professor e seus colegas são sintomas hilários de sucesso. Os benfeitores da humanidade merecem a devida honra e comemoração. Vamos construir um Panteão para professores. Ele deveria estar localizado entre as ruínas de uma das cidades destruídas da Europa ou do Japão, e sobre a entrada do ossário eu inscrevia, em letras de seis ou sete pés de altura, as palavras simples: SAGRADO À MEMÓRIA DOS EDUCADORES DO MUNDO. SI MONUMENTUM REQUIRIS CIRCUMSPICE.

Aldous Huxley, novo prólogo escrito em 1946 para seu livro “Brave New World”.

Prometi, não posso revelar para quem, que não iria mais me render às teorias conspiratórias. E não me renderei. Em primeiro lugar as teorias não são tão carismáticas a ponto de terem auto suficiência para explicar a experiência atual do mundo, em segundo lugar elas não conduzem o homem à ação, como pedia Aristóteles, mas à imobilidade. Eles são ressentimentos parasitários, remorsos mal orientados. E por fim elas, as teses conspiratórias, engessam a vida. Paralisam pela má vontade que inspiram ao pressupor que o gigante é onisciente e invencível, e que a orquestração é de uma perfeição insuperável. E finalmente insta as pessoas a pararem de lutar.

Proponho aqui uma crônica analítica – sem ceder ao neutralismo — tentando seguir o acima citado aforismo de Spinoza. Considerando o que acabo de escrever, reforço o que Aldous Huxley escreveu para a segunda edição do seu clássico “Brave New World” em 1946 (traduzido para o português como “Admirável Mundo Novo”).

Por que Huxley escreveria que a sanidade é um fenômeno raro? Por que é verdade? Esta palavra que está sendo banida pelo repertório mundial de relativização e revisionismo impulsivo. O que temos testemunhado dentro e fora desta doença social sistêmica, que alguns se limitam a chamar de pandemia, e os mais corajosos poderiam nomear como insanidade justificada, é a prova que estamos diante de uma mistura de histeria induzida com um pano de fundo de uma doença que é de fato muito perigosa para uma parcela das pessoas.

O negacionismo por sua vez é um fenômeno real e que costuma apresentar uma dupla característica. A mais evidente é produzir um alívio catártico contra a constatação da nossa impotência frente à catástrofe e a miséria da dor e da morte conforme descreveu Ernst Becker. No entanto, essa característica tem levado a uma curiosa bastardização do termo, que assume proporções alarmantes quando qualquer discussão termina com a desqualificação: “negacionista”. Eles de fato existem, mas eles não são apenas negacionistas. São pessoas que diante da percepção real e concreta de uma ameaça reagem buscando teorias alternativas tanto à realidade quanto à ameaça contra as quais não tem recursos psíquicos para enfrentar. Devem ser perseguidos? Ameaçados? Culpabilizados? Boicotados? Não na minha opinião. Devem antes ser compreendidos pois, em certa medida, conscientes ou não disto, somos todos mais ou menos tanatofóbicos, e com ou sem pandemia a maioria apresenta sintomas e traços patofóbicos.

A segunda característica do que erroneamente vem sendo confundida pelo senso comum com negacionismo é a propagação de teses conspiratórias de alguns grupos não importa a matiz ideológica. Neste caso, estamos lidando com a mera recusa em adotar medidas de proteção pessoal e/ou coletiva uma vez que tudo ou quase relativo ao SarsCoV2 seria uma espécie de fabulação com propósitos distintos. Subestimam assim outras alternativas bem mais simples e ao alcance de projeto de tiranos, ainda que seja inegável que muitos governantes têm se valido da doença para implantar seus planos arbitrários. Existem também formulações mais complexas como aquelas que apontam o controle da humanidade através de microchips incluídos em algumas formas de imunização, e outros exageros análogos, como o plano de exterminar parte da humanidade, uma espécie de eugenia programada por gestores internacionais usando o vírus como vetor.

Para além das teses conspiracionistas, existe também um movimento que rigorosamente também não está no campo do negacionismo mas de uma conhecida concepção individualista de vida social, que  diante de uma circunstância de problema/perigo coletivo como o que agora enfrentamos torna-se mais exuberante. Ora, sem juízo de valor, o individualismo é um traço marcante e predominante das sociedades contemporâneas. Vale dizer, o individualismo, pode estar sendo uma espécie de resposta reativa ao excesso de Estado e sua sistemática tentativa de anular o sujeito. E é no mínimo ingênuo imaginar que a tendência deve ser objeto de cura ou regeneração. Muito menos com uma terapêutica reeducativa proposta pela benevolência do Estado. Mas parece que é o sonho de toda uma geração de educadores e influenciadores como fez notar Huxley. Neste delírio dos notáveis homens de bem não está fora de cogitação trancá-los em campos de reeducação. Quem sabe usando pedagogias avançadas como as adotadas no modelo chinês, iraniano ou venezuelano. Pode-se também contratar consultores avulsos nas Philipinas ou recrutar ex-agentes da KGB para a excelsa tarefa.

Só que nesta última modalidade, não caberia a imputação de negacionista a estes grupos. Distorcido ou não, atuar visando apenas as necessidades e desejos pessoais é antes de mais nada uma reafirmação do caráter vigente do tipo de contrato social sob o qual todos vivemos. E sobretudo resultado de imitação dos exemplos de nossos representantes, jamais dispostos ao sacrifício pessoal quando de trata de dar prioridade ao bem comum. Daí não ser muito compreensível a manifestação de indignação e perplexidade de setores da sociedade contra estes grupos, já que também estes vem vivendo sem grandes protestos e se pautam por este mesmíssimo contrato.

Diante desta incapacidade não se trata de isentar aqueles que arriscando-se, põem os demais sob risco, mas de apontar para a irresponsabilidade dos governantes em sua inação. Todos erraram no timing, omitiram informações, não proveram as medidas compensatórias para a brutal crise econômica gerada, o que não deixa de ser uma forma, ela mesma, de negacionismo instrumental.

O significativo é constatar que nesta atmosfera de confusão observa-se pouca ou nenhuma campanha de esclarecimento real: nada ou quase nada sobre máscaras, escassez quase absoluta sobre como funcionam as várias formas de imunização, ou a importância prática de uma racionalização sobre formas mais inteligentes e menos onerosas de isolamento social. Não vemos campanhas assim nem entre comerciais, muito menos em horário nobre na Tv ou nas emissoras de rádio. Por que?

O mesmo não se pode dizer quando se trata de capitanear politicamente em prol daquele político ou governante que oferece – o que não seria nada além de sua obrigação — mais vacinas, medicamentos, e insumos hospitalares além de medidas mais eficientes de proteção aos seus cidadãos. Neste caso, a culpa pelo longo lapso recai, de fato, sobre o fiasco das várias formas de comunicação governamental, assim como das empresas midiáticas que prestam estes serviços de informação.

Pois não é possível que a única forma que o poder organizado aqui ou em qualquer parte do mundo, parece ter encontrado para conter a virose é impor medidas restritivas com regras mutantes e arbitrárias sem explicar o que isso significa aos seus cidadãos. Cidadãos? Ora, um eufemismo, pois não temos sido tratados como tal. Erigir um estado policial e o incremento do aparelho repressor não, nunca será uma resposta satisfatória para conter uma emergência sanitária. Medidas punitivas e ameaçadoras não são a resposta. Afinal é lícito perguntar, qual é mesmo o plano? Qual é o horizonte social e econômico? Ou perguntas como estas também viraram tabus? O cidadão acaba não sabendo, por exemplo, porque os hospitais de campanha vieram e foram desmontados. Não fica sabendo acerca dos contratos sobre a produção dos imunizantes. Desconhece o que significa tantos gastos públicos sem licitação. Não tem ideia de porque o governo central e os estados vivem às turras. Afinal, quais são as prioridades? Onde está a transparência? Inépcia generalizada federal-estadual-municipal pode ser uma nomenclatura mais adequada para exemplificar o descontrole que estamos testemunhando. Ou seja, são os governantes com seus maus feitos e instrumentalização da pandemia – no mais abjeto estilo de saqueadores durante desastres naturais – quem acabam municiando os conspiracionistas para justificar suas teses esdrúxulas. E, de fato, com tantos exemplos, quem pode acusá-los de insanidade?

Decerto imputar a uma única esfera governamental à situação absurda que vivenciamos é, já, uma das grandes manipulações ao qual estamos sendo submetidos. A grande aberração é quando o cientificismo de palanque rechaça qualquer discussão científica que não esteja alinhada à ideologia defendida. Trata-se da inimaginável doutrina dos partido fármaco-terapêuticos. A falta de diversidade nas mídias e a criminalização de qualquer opinião divergente, é este o fenômeno que atesta o momento institucional disruptivo pelo qual passamos. Há, nos poderes da República, uma rara espécie de isonomia de incompetências que precisa ser sublinhada para se opor aqueles que defendem as administrações anteriores como um exemplo virtuoso. Isso, quando todos sabemos do escandaloso histórico de desvios recentes que culminou com o impeachment. Mesmo que estes tenham sido recentemente abonados por um poder que vem exercendo, impunemente, uma hermenêutica incompreensível para a opinião pública e até para aqueles pares mais corajosos que ousam expor as incoerências.

Voltando ao texto de Huxley, que por se opor de forma veemente ao totalitarismo de esquerda e de direita foi acusado de “um triste sintoma do fracasso de uma classe intelectual em tempo de crise”. Mas ele foi mais atacado ainda quando propos que se ouvisse o que “os sãos disseram sobre a sanidade e os meios pelos quais ela pode ser alcançada”. Diante da voracidade com que o poder tendia a concentrar poder não era inesperada o desfecho pessimista conforme ele escreveu um ano depois do fim da segunda guerra mundial: “É provável que todos os governos do mundo serão, mais ou menos completamente totalitários”. E não é difícil compreender por quê.  É que dentre todas as gradações de insanidade, uma das mais perturbadoras é aquela na qual a sociedade acata com entusiástica submissão o veredito e regras ditadas por legisladores e homúnculos lunáticos.

Ainda há tempo para evitar o aludido panteão, criar ilhas de sanidade para recusar o continente de fanáticos.

 

 

 

 

 

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.