Diário do apartamento 1

Paulo Rosenbaum

19 de março de 2020 | 11h18

Da janela constato, nenhuma alma viva movente. Ninguém se atreve a desafiar as meiopragias. Ninguém disposto ao risco. E o risco sempre fez parte da experiência. Alguém precisa ficar lá fora. A roda do mundo vai permanecer ativa. Robôs e algoritmos não são suficientes. O toque de recolher não será hegemônico. Meu impulso? Desafiar o apartamento. De alguma forma. Uma verve gregária nos impele. Eu, justo eu, acalentador da solidão, que enxergo méritos no protagonismo do sujeito. Eu que me inspirei nos misantropos do spleen. Eu, sobre quem paira a maldição da fobia social. Não vejo saída no tempo. Tampouco me conformo com futuros. Alguns dizem dois meses. Outros, aqueles que acham que controlam algo, dizem seis, um ano, dois, quem sabe? O chefe da Organização Mundial de Saúde havia dito “estamos em terreno desconhecido”. Na raiz das previsões há mais do que matemática: há o reconhecimento da inoperância. Não por inaptidão, imperícia ou falta de heroísmo. Este último, e mais do que nunca, os médicos carregam em suas missões diárias. Apenas porque agora é imperioso reconhecer que a natureza verdadeira da ciência gera mais perguntas do que respostas.  E, ainda assim, abre-se um enorme campo de ócio à frente. A negação do negócio, origem etimológica do ócio. Me dizem que daqui em diante a normalidade será o confinamento, o toque de recolher, a ordem marcial. O Estado voltará a ser o Todo Provedor como sonham os totalitários? Lobos liberados dos cativeiros? A pena capital para infratores será nos destituir de direitos evocando o combate à morte? Será? Mesmo com todos os  votos de sucesso para as estratégias de contenção não é improvável que o momento seja um álibi para um avanço duradouro contra as liberdades individuais. Vimos os drones admoestadores. Se desejassem mesmo a exposição veraz, vital, a origem do problema precisaria ser explicitada: nasceu da falta de liberdade. O Comitê Central do Partido decidiu que era mais prudente ocultar o nascimento da tragédia. É claro,  mandaram o pavor através do espaço cibernético. Acusei o recebimento de cada vídeo. Todos os áudios. Recebi tudo o que de pior poderá acontecer. Os alardeadores da consciência da morte estão à solta, digitando dia e noite. Pensam que nos informam ineditismos. Acham que a tanatofobia nasceu ontem. Abarrotado por panfletos digitais, todos vem esfregar na cara que — em tempos de pandemia — aspiração à liberdade é crime, egolatria, inamistosa incompreensão dos princípios republicanos, sabotagem contra a coletividade indefesa. A liberdade já é invisível.  É evidente que a maioria não deseja ser o fósforo que propaga a peste ou o agente ativo da praga. O velho médico já dizia, mas quem ouve? “O Vírus não quer matar, deseja propagar-se entre vivos”. Ele só não esperava que no XXI estaríamos discutindo a gerontoeugenia. Minhas aspirações agora foram reduzidas. Meus sonhos foram reduzidos aos poucos. Sair de casa sem ansiedade de consciência. Dia 1 e já me passaram múltiplas heresias pela cabeça. Querem a confissão? Circular sem ser confundido com um míssil balístico. Tossir sem ser observado. Andar até a praça. Desenhar sob o sol. Inalar ar puro, e, ignorar que a atmosfera deixou de ser segura. Há uma névoa de virulência, instrumental, não biológica, que estava a espreita. E é ela que pode te caçar. Muito provavelmente ela irá atrás dos teus pais como sombra. Haverá um populismo cientificista cujas barreiras serão maiores do que as barricadas epidemiológicas. Os oportunistas saíram do esconderijo. E, não defenestrados, podem sim te impor um fim ainda mais precoce. O agente invisível de 0,125 micron ou 125 nanômetros que atende pelas iniciais cttgaaaacc será lembrado como um pesadelo infinitesimal perto dos seus controladores.

Mas, pensando bem, e considerando as circunstâncias, quem ainda se importa com precocidade?  Sempre soubemos que viver era perigoso, agora temos o atestado.

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