Diário do apartamento II (Misantropia induzida pelo Estado)

Paulo Rosenbaum

29 de março de 2020 | 20h51

Hoje, depois de não entrar em contato com outros seres por quase 9 dias, 13 horas e 42 minutos desci ao deserto pátio do apartamento para sentir o sol, e um pássaro apareceu, na verdade pulou para fixar-se no galho de uma árvore bem próxima. Era uma espécie conhecida, torso laranja, bico fino, com coloração  intercalada de vermelho e no ápice uma tira negra que cobria os olhos em forma de coroa, bem no topo da cabeça. Um sabia de peito amarelo. Outro veio juntar-se a ele e pularam juntos em minha direção. Ambos ficaram me observando, e sob a contemplação mútua, eles, ocasionalmente, rodavam os pescoços para, aparentemente, me escrutinar melhor. Depois, voaram juntos ao chão, beberam a água que se acumulara entre o concreto e a grama, e foram-se.

Minha sensação foi o de, ali, ter destravado. Ali abandonei a solitária. Depois da misantropia induzida pelo Estado a presença de outros seres vivos tornou-se anômala, quase perturbadora.  Mas o que me incomodou mais foi a constatação de que suas vidas simplesmente não fizeram a menor cerimônia com a minha condição. Não há crise moral alguma para as outras espécies e nem nos fenômenos naturais. Eles são dotados de um incrível desapego às nossas teorias, nossos julgamentos e juízos. Isso é, a natureza vive à nossa revelia, está emancipada de nós sem que tenhamos noção do tamanho da sua indiferença. O Cosmos, como na poesia de Stephen Crane, não tem nenhuma culpa ou senso de obrigação.

Subi as escadas de volta ao apartamento pensativo, e, no percurso testemunhei mais um ato de menosprezo. Enquanto a maioria reafirmava que o veneno continuava a ser inoculado no ar mundial, notei, através da fresta da janela basculante de cada andar vencido, que havia um por do sol magnífico. As cores amareladas e o contraste com o azul diminuíam as construções e ultrapassavam as nuvens com irrecuperáveis ondas de luz.  A cena não estava lá para mim, para você, para ninguém. Afinal pude internalizar aquilo que Ortega Y Gasset afirmara: a “vida é puro acontecimento”. O acontecimento prescinde de um admirador. A emancipação do mundo antecede nosso desejo. Despreza nossas necessidades.

Assim como o vírus que escapou do cercado. Agora o destino nos impôs escolhas e estamos cercados de paradoxos éticos. Falsos e verdadeiros. O que fazer para mitigar a temporária falta de horizonte? A admirável coragem dos médicos clínicos e da manutenção dos serviços essenciais nos fronts de atendimento não bastam.

Leio, assustado, que se assanham algumas espécies de caráter: os cientificistas da catástrofe, os virologistas do apocalipse, os marxistas primitivos em síndrome de abstinência de poder, os velhos conspiradores autoritários, e os populistas que continuam o assalto e o aparelhamento de organismos internacionais como a ONU e a OMS. A perplexidade fica por conta dos fã clube padrão viral, pessoas que ousaram  felicitar a atual crise antevendo-a como uma “grande oportunidade de mudança de paradigma”, “reinvenção da sociedade”e “golpe fatal no capitalismo”.

A fita é puro reprise, já assistimos antes.

Assim como os saqueadores que se aproveitam dos desastres naturais existem aqueles que não nos privarão de suas hermenêuticas revolucionárias, cheias de ressentimento ideológico e avançado senso de inadequação e timing.  O que existe, e abundantemente, é o maniqueísmo instrumental daqueles que hoje ocupam cargos os quais, sob o álibi do voto, imaginam vitalícios.  Imitar a natureza e aceitar o darwinismo social decorrente da seleção natural é tão inaceitável quanto passar por cima do senso comum e não compreender que a vida deve começar a fluir imediatamente — mesmo com alguns riscos — assim que o distanciamento social puder ser relaxado.

Não há uma percepção ainda clara de que, sob o manto do discurso supostamente humanista e do pseudo antagonismo “salvar vidas X não deixar a estrutura socioeconômica colapsar”, encontra-se a verdadeira armadilha e vale dizer, a verdadeira gênese dessa pandemia: a falta de liberdade. A falta de liberdade ditada pelos burocratas da alta cúpula chinesa em conluio com autoridades sanitárias por eles controladas. E o que adianta denunciar isto agora? Empiricamente pouco. Politicamente muito. Só para dizer que não será ofuscando as liberdades e direitos individuais ou enaltecer o voluntarismo do poder que mudaremos para qualquer coisa melhor.

Uma solitária — que é a nova realidade para bilhões de idosos e desvalidos condenados ao exílio domiciliar — pode protege-los de netos e das respectivas cargas virais, mas não do abandono e da latente gerontofobia.

O mais inusitado dos efeitos das respostas que estamos dando à crise foi aprofundar a falta de sentido, esta sim, a verdadeira crise preexistente.

Por que e quando foi que viramos esta raça de covardes? Como chegamos a entregar nossos destinos à gente tão despreparada para gerir a única coisa que deveríamos ter confiado aos Estados, serviços públicos de qualidade? Ninguém  mais sonha com o estado ideal, só um lugar seguro onde as pessoas tenham prioridade às elites mancomunadas com o Poder.

Cheguei ao meu andar, e já no último degrau da escada, acompanhei o sol terminar mais uma jornada, e mais desta vez sem levar em consideração minha autopiedade claustrofóbica.

 

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